O Brasil é um Estado Nacional com um dos maiores territórios do planeta, situado quase todo ele entre a linha do Equador e o Trópico de Capricórnio. Isto significa que a radiação solar o atinge com mais intensidade que sobre o território de um país temperado. Os ventos que sopram do Oiapoque ao Chuí e da Paraíba ao Acre apresentam velocidades e regularidades distintas. Sua zona costeira e sua plataforma continental apresentam vasta extensão.
No interior de suas fronteiras existem sete grandes biomas vegetais nativos (conjunto de ecossistemas relacionados entre si), além da maior rede fluvial do mundo. A zona costeira integra lagoas, marismas, manguezais e vegetação de restinga. O Domínio Atlântico, além de abarcar grande parte dos ecossistemas costeiros, constitui-se de matas perenes, matas mistas, matas estacionais e campos de altitude. A Caatinga é uma savana estépica dilatada, enquanto que o Cerrado pode ser considerado uma vegetação típica de savana. A Amazônia é um mundo de vegetação e de água, assim como o Pantanal Mato-Grossense. Por fim, os vastos Campos do Sul ou Pampa.
Evitando o ufanismo, não podemos esquecer o estado de perturbação e de degradação desses biomas e ecossistemas. O pragmatismo e o utilitarismo de origem européia, traduzidos em extrativismo, agropecuária, industrialização e urbanização, destruíram incontáveis ecossistemas costeiros, reduziram o Domínio Atlântico à cerca de 7% de sua extensão original, devoraram 50% do Cerrado e tiraram um naco de 15% da Amazônia. A Caatinga, já por natureza semi-árida, tornou-se mais seca ainda por ação humana. Os Campos do Sul passaram também por forte transformação antrópica. O Pantanal e os rios mais caudalosos, quem diria, apresentam já poluição acentuada.
Mesmo assim, estou convencido de que não estaríamos enfrentando dificuldades energéticas se aproveitássemos toda a energia já produzida pelo sol e pelos ventos. Por pressão dos geradores de energia por combustíveis fósseis, temos que dispersar solar e eólica. Nem sequer baterias para acumulá-las o Brasil tem. O velho estilo energético bloqueia o novo estilo. O carvão foi superado pelas novas fontes de energia. Em parte, é uma boa notícia. Em parte não. O velho está impedindo a passagem do novo.
Há anos, vivemos uma crise crônica de energia por estar sua produção apoiada nos poucos elefantes das hidrelétricas e dos combustíveis fósseis. Basta uma estiagem prolongada para gerar uma crise um caráter agudo. Esses poucos elefantes poderiam ser substituídos por muitos coelhos. Quer isto dizer que o aproveitamento descentralizado da energia solar direta, da energia eólica, da biomassa, da energia das marés, e outras poderiam ser estimuladas com recursos acumulados pelos setores energéticos clássicos. Num primeiro momento, esta mudança paradigmática aliviaria as tensões sobre o sistema convencional de geração de energia. Em seguida, as novas fontes consolidariam novas tecnologias e novos padrões de distribuição.
Trata-se de utopia? Talvez. Mas cabe lembrar que nosso esgotado modelo civilizacional foi considerado utópico um dia. Substituímos a energia muscular animal e a lenha pelo carvão mineral, pelo petróleo e pelo gás natural. Precisamos acelerar a nova transição. As fontes novas e renováveis de energia representam a grande transição para outras transições. Mudando a matriz energética, pode-se mudar as outras matrizes.