Arthur Soffiati

Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ

Arthur Soffiati

Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ

Começava o ano de 1966. O lugar era o Rio de Janeiro, que deixara de ser a capital do Brasil e a sede do Distrito Federal. Ele se transformou no estado da Guanabara, com o Rio de Janeiro como capital entre 1960 e 1975.

Começou a chover forte. A chuva continuou intensa por cinco dias. A cidade foi alagada em vários pontos. Houve deslizamentos, inundações, destruição em vários bairros. Sobretudo nas encostas, nos bairros pobres e nas favelas.

Várias pessoas se ofereceram como voluntárias, mas o governo não sabia como aproveitá-las. Já havia muita gente trabalhando. E pessoal preparado para atender aos atingidos, embora a impressão era a de que a chuva torrencial pegou população e governo de surpresa.

Mais tarde, soube-se que vários outros lugares do estado do Rio de Janeiro foram afetados. Havíamos enfrentado fenômenos meteorológicos virulentos, mas, nunca como aquele. Chuva intensa e interminável.

Ainda não existia preocupação com mudanças climáticas. Não se falava nisso. Entendia-se que o clima era regular e previsível. Fazia calor no verão e chovia muito, assim como, esfriava no inverno e havia estiagens. Em meio a essa regularidade, havia fenômenos climáticos mais intensos de tempos em tempos. Eram os ciclos decenais e centenários. Aquelas chuvas no início de janeiro de 1966 nunca tinham sido registradas antes. Mas eram previsíveis.

Daí em diante, órgãos governamentais passaram a se equipar para efetuar previsões mais precisas de fenômenos climáticos, sobretudo chuvas torrenciais. Da mesma forma, passaram a desenvolver sistemas de evacuação de áreas potencialmente perigosas em face de fenômenos climáticos. Foi criada a Geo-RIO fundação vinculada à Secretaria Municipal de Infraestrutura do Rio de Janeiro.

De 1966, aos nossos dias, houve chuvas até mais volumosas do que as de 1966, mas, não ocorreram as mortes daquele ano por medidas preventivas. Alagamentos, transbordamentos e deslizamentos continuam. A cidade ainda não se adaptou devidamente às mudanças climáticas.

A tempestade de 1966 não suscitou discussão sobre o aquecimento progressivo da Terra. Nem mesmo a Conferência de Estocolmo, em 1972, levantou essa questão. Só em meados da década de 1970, algumas vozes começaram a relacionar a queima intensiva de carvão, petróleo e gás natural ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Para estudá-las, foi criado o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas no âmbito da ONU.

A maioria da população continuava indiferente às mudanças climáticas excessivas. Uma minoria ligada aos combustíveis fósseis adotou uma postura negacionista. No extremo oposto, outra minoria passou a alertar quanto aos perigos das mudanças climáticas em todo o mundo.

Enchentes em Friburgo, na zona serrana do Rio de Janeiro, no litoral paulista, no Rio Grande do Sul, no Paquistão, assim como secas severas endossaram a posição dos ecologistas. Mas, a adaptação às mudanças climáticas ainda caminham a passos lentos. A redução de combustíveis fósseis também.

O que será promovido primeiro? A adaptação dos ambientes às mudanças climáticas ou o combate direto delas pela redução progressiva na queima de combustíveis fósseis? A primeira alternativa é menos difícil, mas, pelo visto, nenhuma das duas chegará a tempo de evitar novas catástrofes.

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