Dra. Flávia de Freitas Ribeiro

Médica Pediatra
CRM 52 92522-5
Formada pela FMC
Residência em pediatria no HMSA/RJ
Pós-graduanda em psiquiatria da infância e adolescente

Dra. Flávia de Freitas Ribeiro

Médica Pediatra
CRM 52 92522-5
Formada pela FMC
Residência em pediatria no HMSA/RJ
Pós-graduanda em psiquiatria da infância e adolescente

Nem toda desatenção é um transtorno

“Meu filho não para quieto, não presta atenção e logo abandona o que começa.” Queixas como essa são cada vez mais frequentes nos consultórios, quase sempre acompanhadas da dúvida: será TDAH?

Antes de responder, precisamos considerar o contexto atual. Vivemos uma infância cercada por telas, vídeos curtos e múltiplos estímulos que disputam a atenção das crianças continuamente.

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento, de origem multifatorial e forte componente genético. Manifesta-se por desatenção, hiperatividade e impulsividade em intensidade incompatível com a idade, gerando impacto real no cotidiano. O diagnóstico não é feito apenas por agitação pontual; exige avaliação criteriosa do desenvolvimento em múltiplos ambientes, como casa e escola.

Por outro lado, a exposição excessiva a telas pode provocar ou intensificar sintomas muito parecidos: dificuldade de foco, impaciência, irritabilidade e menor tolerância a atividades mais lentas. Em crianças que já possuem TDAH, o excesso de estímulos digitais, somado ao sono inadequado e à falta de exercícios e brincadeiras, torna as dificuldades ainda mais evidentes.

Imagine a transição: após receber imagens e sons dinâmicos em rápida sequência na tela, a criança precisa acompanhar uma aula ou leitura sem recompensas imediatas. Sustentar o foco nesse segundo cenário torna-se um grande desafio.

Além disso, o tempo digital frequentemente substitui rotinas essenciais. Quando ocupa o espaço do sono, da atividade física, das brincadeiras livres e da convivência familiar, perdem-se experiências cruciais para o desenvolvimento da atenção e da autorregulação.

O sono, em especial, exige cuidado. Crianças que dormem mal tendem a ficar agitadas, desatentas e impulsivas durante o dia, comportamentos que podem se confundir com o TDAH.

Outros fatores, como ansiedade, dificuldades de aprendizagem, problemas emocionais e rotinas desorganizadas, também simulam o quadro. Por isso, frente à desatenção, não devemos apressar um diagnóstico nem responsabilizar unicamente as telas. É preciso investigar: os sintomas ocorrem em vários ambientes? Há prejuízo na aprendizagem? Como estão a qualidade do sono e o tempo diante das telas?

A tecnologia não é vilã e pode trazer benefícios quando usada com equilíbrio. Impor limites, preservar momentos sem celular (como refeições), evitar telas antes de dormir e incentivar esportes e leitura são medidas simples e eficazes.

Havendo suspeita de TDAH, a avaliação especializada é indispensável para tratar quem realmente necessita e evitar a medicalização desnecessária. Muitas vezes, a primeira intervenção consiste em reorganizar hábitos e o ambiente da criança.

TDAH e excesso de estímulos podem, inclusive, coexistir. Diagnóstico não é um rótulo, mas, um caminho para compreender e acolher a criança por inteiro.

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