Natural de Campos dos Goytacazes, a Dra. Letícia Santos da Silva Chagas construiu uma trajetória pautada pela dedicação aos estudos e pelo compromisso humano com o cuidado infantil. Filha de Mary Jane Santos da Silva Chagas, assistente social, e de Amaro Barcellos Chagas, aposentado da Petrobras, ela é a mais velha de três irmãs, casada com Bruno Nogueira e mãe da pequena Sofia, de quatro anos. Formada pela Faculdade de Medicina de Campos, superou o desafio da distância para realizar suas residências na UNESP de Botucatu e na UNICAMP. Atuando como endocrinologista pediátrica em sua cidade natal desde 2018, dedica-se ao acompanhamento e suporte emocional de crianças com diabetes tipo 1 através do grupo Conexão DM1. Nesta entrevista à revista Saúde Press, a médica fala sobre sua carreira, vida em família e os desafios da especialidade.
SP – Como começou a sua trajetória e o que te conduziu à medicina?
LS – Sou a mais velha de três irmãs e meus pais não são médicos. Meu pai trabalhava na Petrobras e minha mãe era assistente social. Por não ter familiares na área, meu contato na infância se restringia às consultas de rotina com pediatras. A ideia de fazer medicina surgiu no ensino médio. Eu gostava muito de biologia e pensei em cursar biomedicina, já que me identificava bastante com fisiologia e genética.
SP – Como foi a transição para a decisão de cursar medicina?
LS – No ensino médio, conversando com meu professor de biologia, o Gustavo, ele me perguntou por que eu não tentava medicina. Aquilo me fez considerar a possibilidade. Prestei vestibular e, no segundo ano, passei para a Faculdade de Medicina de Campos. Ao ingressar, me identifiquei imensamente com o curso, e hoje, não me vejo fazendo outra coisa. Embora não fosse um sonho de infância por falta de referências próximas, tornou-se minha verdadeira paixão.
SP – A atuação da sua mãe na assistência social influenciou sua escolha?
LS – Minha mãe atuou na área da saúde quando eu era nova, trabalhando em hospital psiquiátrico. Depois foi aprovada em um concurso para Escola Técnica Federal de Campos, hoje IFF; posteriormente, passou para um concurso do Tribunal do Estado do Rio de Janeiro, trabalhava na Vara da Infância e Juventude. Como o trabalho dela na saúde foi bem específico e anterior, não havia uma ligação direta em casa com a medicina. A minha inclinação para a pediatria nasceu do encanto com a disciplina durante a faculdade, e a endocrinologia veio por uma razão familiar.
SP – O que motivou a sua escolha pela endocrinologia pediátrica?
LS – A motivação foi minha irmã do meio, a Laís, diagnosticada com diabetes tipo 1 aos 10 anos, há cerca de 20 anos. Na época, não havia endocrinopediatra em Campos e ela foi tratada por endocrinologistas clínicos. Embora tenha sido muito bem cuidada, percebi ali que a criança tem características metabólicas, emocionais e de crescimento específicas, exigindo um olhar focado e capacitado com formação em pediatria.
SP – Como foi acompanhar o diagnóstico e a rotina da sua irmã?
LS – O diagnóstico de diabetes tipo 1 muda a rotina da família inteira. Lembro das adaptações que foram necessárias na nossa rotina de alimentação e alguns hábitos que foram modificados para o bem-estar dela. Com muito empenho dos meus pais e de toda a família, ela conseguiu levar uma vida perfeitamente normal. Essa vivência me mostrou que, com orientação correta e apoio, a criança consegue viver com qualidade, segurança e pleno desenvolvimento.
SP – Como você orienta os pais no consultório após o diagnóstico?
LS – Digo sempre que a família toda precisa mudar. Não é para ter uma alimentação restrita ou punitiva. Hoje, com a contagem de carboidratos, a criança pode ter uma alimentação variada, mas, é preciso eliminar alguns maus hábitos. A alimentação deve ser predominantemente saudável, como é preconizado também, para crianças sem diabetes. Trata-se de reeducar a família em prol da saúde de todos. Com as informações corretas e tratamento adequados, a criança pode viver de forma plena.
SP – Como foi o suporte da sua família e do seu marido para se especializar fora?
LS – O apoio de todos foi fundamental. Comecei a namorar o meu marido em 2011, no quarto ano de faculdade e já pretendia fazer residência fora de Campos para buscar especialização. Ele sempre me apoiou nessa decisão, assim como meus pais e minhas irmãs. Esse incentivo me deu a tranquilidade necessária para ir buscar minha formação.
SP – Onde você fez suas residências e como superaram a distância?
LS – Em 2014, fui para a UNESP de Botucatu fazer residência em Pediatria. Em 2016, me mudei para Campinas para fazer dois anos de Endocrinologia Pediátrica na UNICAMP, retornando a Campos em 2018. Por conta dos meus plantões, era difícil eu viajar no fim de semana, então o Bruno ia mais a São Paulo para me ver. Foi um período conturbado pela distância, mas deu tudo certo, e hoje, temos nossa linda família, com a nossa filha Sofia, de quatro anos.
SP – Você se sente realizada profissionalmente em Campos?
LS – Sinto-me muito realizada, mas, ainda tenho objetivos que desejo alcançar. Em Campos, ainda falta um serviço estruturado e centralizado em endocrinologia pediátrica, principalmente, para atendimento e mapeamento de dados do diabetes tipo 1. Gostaria muito de trazer para a cidade um centro com cuidado multidisciplinar integrado, reunindo nutricionista, psicólogo, educador físico e médico no mesmo espaço.
SP – Como nasceu a sua colaboração com o projeto Conexão DM1?
LS – Quando voltei a Campos e comecei no consultório, vi a grande necessidade de aproximar os pacientes. Na residência na UNICAMP, minha preceptora, Dra. Sofia, atendia doenças raras e fazia questão de apresentar os pacientes uns aos outros para que vissem que não estavam sozinhos. No consultório, vi que pais e crianças com diabetes também se sentiam isolados. O Conexão DM1 nasceu justamente para criar essa rede de pertencimento e apoio mútuo.

SP – Quais as maiores angústias vividas por essas famílias no dia a dia?
LS – O diabetes exige decisões 24 horas por dia. Comer um bolo exige calcular carboidratos, dosar a insulina e prever se a atividade física causará hipoglicemia. Isso gera um estado de alerta constante e medo nas mães, que perdem noites de sono. Recentemente, recebi mensagem de uma mãe aflita perguntando quanto tempo poderia dormir à noite. É uma angústia enorme, e o grupo busca dar esse suporte emocional indispensável.
SP – E como é a atuação das suas irmãs e o apoio familiar atualmente?
LS – A Laís, que me motivou a fazer endocrinologia, fez psicologia e agora está se formando em medicina, pretendendo atuar em Medicina de Família e Comunidade. Minha irmã mais nova, a Luciana, fez design de moda, mora em São Paulo e me ajuda com as postagens de redes sociais, já que não sou nada tecnológica (risos). Meu pai, aposentado da Petrobras, e minha mãe completam esse alicerce familiar que me sustenta em tudo.
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