Natural de Três Rios (RJ), Evaldo Rodrigues construiu uma trajetória marcada pela dedicação aos estudos, pela atuação na Engenharia e pela paixão pela psicanálise. Filho de seu Evaldo e dona Walda, casado há 38 anos com Selma Maria, pai de Vinícius, Vitor, Carolina e João Paulo, e avô de Rian, José Pedro e Alice, nesta entrevista à revista Saúde Press, fala sobre carreira, família, saúde mental e os desafios emocionais da sociedade contemporânea.
SP – Como começou sua trajetória profissional?
ER – Meu pai veio para Campos quando foi criada a Superintendência Regional da Ferrovia. Em 1982, eu também vim e logo passei em concursos para a ferrovia, Banco do Brasil e Petrobras. Como minha família inteira tinha tradição ferroviária, meu pai sonhava que eu seguisse esse caminho.
A ferrovia me chamou primeiro e eu aceitei. Comecei como auxiliar de maquinista e, depois, fui crescendo profissionalmente, passando para o setor administrativo e me formando técnico em Segurança do Trabalho.
SP – A tradição ferroviária teve influência importante na sua vida?
ER – Sem dúvida. Meu bisavô, meu avô e meu pai eram ferroviários. Existia uma ligação afetiva muito forte da nossa família com a ferrovia.
Meu pai falava com muito orgulho dessa história e desejava que eu desse continuidade a esse legado. Hoje, entendo o quanto isso influenciou minhas escolhas profissionais e minha formação como homem.
SP – A Petrobras já fazia parte dos seus planos naquela época?
ER – Sim. Inclusive, em 1986, recebi uma convocação da Petrobras por telegrama, mas, o prazo já havia expirado. Fiquei frustrado, porque era um sonho.
Continuei minha trajetória na ferrovia até a privatização, no governo Fernando Henrique Cardoso. Depois, trabalhei com vendas, passei pelo Hospital Beda e atuei na área de controle de infecção hospitalar e Segurança do Trabalho.
Mais tarde, entrei em uma multinacional offshore, onde cresci rapidamente até me tornar auditor interno. Mesmo assim, continuei aguardando uma nova oportunidade na Petrobras.
SP – E quando essa oportunidade finalmente chegou?
ER – Eu já estava muito bem na multinacional, mas havia avisado aos meus gestores que meu objetivo era a Petrobras. Quando fui chamado novamente, eles tentaram me convencer a permanecer, oferecendo até oportunidades internacionais.
Mas fui para a Petrobras, onde vivi uma experiência muito rica profissionalmente. Foi um período de muito aprendizado técnico e humano. Foi lá que me aposentei.
SP – Em que momento surgiu a psicanálise na sua vida?
ER – Sempre fui apaixonado pelas ciências humanas e queria cursar Psicologia. Quando entrei na Petrobras, pensei nisso novamente, mas, a influência do meu pai falou mais alto e acabei fazendo Engenharia.
Fiz cinco anos de graduação e pós-graduação em Engenharia de Segurança. Porém, o interesse pelo comportamento humano nunca desapareceu. Em 2014, comecei minha formação em psicanálise e nunca mais parei de estudar.
SP – Como funciona a formação de um psicanalista?
ER – A psicanálise não funciona como uma graduação tradicional. No Brasil, assim como em vários países do mundo, é uma ocupação regulamentada pelo CBO 2515-50.
A formação é feita por instituições formadoras e baseada em um tripé: estudo teórico constante, análise pessoal e supervisão clínica. Ou seja, além de estudar, o futuro psicanalista precisa passar pelo próprio processo analítico e discutir casos clínicos com supervisores experientes. É uma formação contínua, que acompanha toda a vida profissional.
SP – Acredita que a experiência profissional anterior ajudou na atuação clínica?
ER – Muito. Trabalhar embarcado exige preparo emocional, equilíbrio e capacidade de lidar com pressão. Durante a pandemia, por exemplo, atuei dando suporte psicológico aos colegas da Petrobras.
A pedido da própria empresa, organizávamos grupos terapêuticos para lidar com ansiedade, medo e confinamento. Isso ampliou muito minha visão sobre sofrimento emocional e saúde mental no ambiente corporativo.
SP – Como foi viver aquele período da pandemia dentro das plataformas?
ER – Foi um momento muito intenso. Havia medo, insegurança e muitas incertezas. As equipes precisavam continuar trabalhando e, ao mesmo tempo, lidar emocionalmente com tudo o que estava acontecendo no mundo.
A convivência em confinamento exigia preparo psicológico. Essa experiência me trouxe uma compreensão ainda mais profunda sobre ansiedade, angústia e sofrimento humano.
SP – Hoje, muito se fala sobre burnout. Como a psicanálise entende esse problema?
ER – O burnout é uma manifestação do corpo quando o psiquismo não suporta mais a pressão. A sociedade atual exige performance o tempo inteiro e muitas pessoas passam a viver apenas para atender metas e cobranças.
A pessoa deixa de se perceber como sujeito e passa a se enxergar apenas como peça de uma engrenagem. A psicanálise trabalha justamente esse resgate da consciência e da individualidade.
SP – O adoecimento emocional tem aumentado nos últimos anos?
ER – Muito. As pessoas estão cada vez mais cansadas mentalmente. Existe uma cobrança excessiva por produtividade, resultados e perfeição.
O ser humano não consegue mais descansar emocionalmente. Muitas vezes, ele dorme, mas, não recupera suas energias psíquicas. Isso acaba refletindo dire
tamente no corpo, nos relacionamentos e na qualidade de vida.
SP – De que forma a psicanálise pode ajudar nesses casos?
ER – A psicanálise ajuda a pessoa a compreender aquilo que ela sente e, muitas vezes, não consegue nomear. O paciente passa a entender seus conflitos internos, suas angústias e a maneira como se relaciona com o mundo.
Esse processo produz mais consciência emocional e pode trazer mudanças importantes na forma de viver e enfrentar os desafios do cotidiano.
SP – Qual a importância da família na sua trajetória?
ER – Fundamental. Todas as minhas decisões passaram pela minha esposa e pelos meus filhos. Minha família sempre foi meu porto seguro, principalmente, durante os anos embarcado.
Essa estrutura familiar me deu equilíbrio para enfrentar os desafios profissionais e pessoais.
SP – Acredita que esse apoio familiar contribuiu para suas escolhas profissionais?
ER – Com certeza. Em vários momentos da minha carreira, recebi convites para trabalhar fora do país, principalmente, em projetos ligados à área offshore.
Mas sempre coloquei a família como prioridade. Meus filhos ainda eram jovens e eu preferi permanecer mais próximo deles. Hoje, vejo que foi uma decisão acertada e que valeu muito a pena.
SP – Como é sua atuação atualmente?
ER – Desde 2020, me dedico integralmente à clínica psicanalítica. Continuo estudando, me atualizando e atendendo pacientes em Campos dos Goytacazes, no Turf Centro Shopping, sala 32, whatsapp 22 99866-9620. .
A psicanálise é uma paixão, e também, uma missão de acolhimento e escuta diante do sofrimento humano. Meu objetivo é ajudar as pessoas a compreenderem melhor suas dores emocionais e encontrarem novas formas de viver com mais equilíbrio e saúde mental.