Nos últimos anos, a medicina tem redescoberto o potencial terapêutico da Cannabis sativa, e esse movimento vem ganhando força também no campo da geriatria. Com o envelhecimento populacional, cresce a busca por alternativas terapêuticas seguras e eficazes, que possam promover mais qualidade de vida. Nesse contexto, a cannabis medicinal surge como uma ferramenta promissora.
É essencial compreender que estamos nos referindo ao uso medicinal da planta, feito com acompanhamento profissional e baseado em evidências científicas. Os principais compostos – o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC) – atuam no sistema endocanabinoide, responsável por regular funções vitais como: sono, dor, apetite, humor e imunidade.
Estudos mostram que, em pacientes com Alzheimer, o CBD pode exercer ação neuroprotetora e anti-inflamatória, contribuindo também, para a redução de sintomas como agitação e agressividade, comuns na demência. Já no controle da dor crônica, frequente entre idosos com osteoartrite ou neuropatias, a cannabis oferece alívio com menor risco de efeitos adversos em comparação a opioides e anti-inflamatórios.
Outro ponto importante é a insônia, que afeta de forma significativa à saúde do idoso. A cannabis pode ajudar na indução e manutenção do sono, melhorando o descanso noturno e reduzindo a necessidade de medicamentos sedativos, que muitas vezes, estão associados a quedas, confusão mental e dependência.
Em relação à saúde mental, é cada vez mais reconhecida a eficácia do CBD no manejo da ansiedade leve a moderada, especialmente, em pacientes que não toleram bem os antidepressivos convencionais. Isso amplia as opções terapêuticas em um grupo, que muitas vezes, apresenta limitações ao uso de certos fármacos.
Nos cuidados paliativos, a cannabis medicinal atua de forma integrada, aliviando sintomas físicos e emocionais, como: dor, náuseas, insônia e ansiedade, promovendo bem-estar e respeito à dignidade do paciente em fases avançadas da vida.
Vale lembrar que o metabolismo do idoso é diferente, exigindo atenção redobrada quanto à dosagem e à resposta ao tratamento. O início deve ser sempre cauteloso, com ajustes progressivos conforme a tolerância e as necessidades individuais.
Além disso, o diálogo com familiares e cuidadores é indispensável. Ainda há muita desinformação e estigma em torno do tema, e é papel do médico orientar com clareza e empatia, desmistificando mitos e apresentando os benefícios e limites da terapia canabinoide.
A cannabis medicinal não é uma solução mágica, mas também, não deve ser negligenciada. Ela representa uma oportunidade de inovar no cuidado ao idoso, unindo ciência, responsabilidade e humanização. Como médica geriatra, acredito que ampliar o repertório terapêutico é fundamental para acompanhar os desafios de uma sociedade que envelhece – e a cannabis pode, sim, fazer parte dessa transformação.