Revista Saúde Perss
CAPA | ENTREVISTA
Dr. Rogério Venancio
Cirurgião Plástico
CRM 52 31757-4

Revista Saúde Perss

Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ

arthursoffiati
as-netto@uol.com.br
ÁREAS ÚMIDAS E ENDEMIAS
Todos os continentes do mundo contam com áreas úmidas, sejam elas na forma de rios, sejam de lagoas, de banhados, de pântanos, de brejos. Até mesmo no continente Antártico, embora coberto por uma calota polar o ano todo, forma-se algum acúmulo de água durante o verão. Com o aquecimento global, o derretimento desse gelo, chamado eterno no passado, está derretendo. A expressão área úmida não está sendo aqui empregada em seu sentido rigoroso, que significa terrenos com água corrente ou dormente de até seis metros de profundidade.

Parece que a concepção negativa dos ambientes aquáticos dormentes veio da Europa com os colonizadores. Lá, pairava em torno dos pântanos uma série de lendas sobre seres sobrenaturais ou preconceitos de que se tratava de locais perigosos. Desses pântanos – dizia-se – emanavam miasmas causadores de doenças. A decomposição de matéria orgânica produzia emanações que provocavam enfermidades.

Entre os povos nativos da América, tais ambientes eram fonte de alimento, e muitas vezes, protegidos por entidades sagradas. Um exemplo ilustrativo da relação desses povos com a água é a ilha de Marajó. Lá, durante as cheias do rio Amazonas, as águas invadiam as partes baixas da ilha e ficavam aprisionadas e povoadas de peixes. Os habitantes da ilha desenvolveram áreas barradas para aumentar os reservatórios e criar peixes para o consumo. Nasceu assim, uma civilização do peixe. Não só com a agricultura e o pastoreio nasceram as primeiras civilizações. O peixe, criado na ilha de Marajó, permitiu o desenvolvimento de uma sociedade hierarquizada e de uma cerâmica capaz de rivalizar com qualquer outra do mundo em qualidade de fabricação e de decoração.

Contudo, o preconceito trazido por europeus com relação às áreas úmidas acabou predominando. Mais até do que decompor matéria orgânica e gerar gases causadores de doenças, as áreas úmidas abrigavam mosquitos transmissores de enfermidades. Alberto Ribeiro Lamego interpretava a palavra “Muriaé” como corruptela indígena de “morrer aí”. De fato, no baixo vale do rio Muriaé grassaram muitas doenças no século XIX. Elas decorreram do descomunal desmatamento dos tabuleiros da margem esquerda do rio Paraíba do Sul, afugentando animais portadores de vírus e bactérias que transmitiam doenças.

Nada de estranho atualmente. Sabemos bem que o desmatamento pode aumentar a incidência de febre amarela e da malária. Suspeita-se que o consumo de animais silvestres na China tenha permitido ao vírus da covid-19 pular para o ser humano. Mas essas áreas não foram apenas cercadas de medo. Tratava-se de eliminá-las sob a alegação de saneá-las.

Nos dicionários, saneamento consiste numa “série de medidas que tornam uma área sadia, limpa, habitável, oferecendo condições adequadas de vida para uma população ou para a agricultura”. No século XX, já se sabia que as emanações de água parada e a picada de mosquitos em si não causam doenças. O mosquito é tão somente um vetor que inocula micro-organismos patogênicos. Em águas povoadas de peixe, ainda que paradas, mosquito não se cria. Os peixes devoram o animal ou seus ovos. Dengue, zica e chikungunya ocorrem mais em ambientes urbanos onde recipientes de água parada sem predadores permite ao mosquito depositar seus ovos. Dali, nascerão muitos mosquitos que picarão as pessoas, transmitindo-lhes doenças.

Tudo leva a crer que a expressão “saneamento” foi usada para drenar áreas úmidas com fins econômicos, e não sanitários. Não convinha drenar tanta lagoa na baixada dos Goytacazes revelando publicamente que a ação visava atender à economia. Usou-se, então, a palavra “saneamento”, que tem o sentido amplo de atender à população pobre e rica.

Dessa sangria desmesurada de lagoas, restaram as lagoas Feia, do Campelo e de Cima, além de outras menores. Não se sabe de mosquito procriando em suas águas atualmente. Não se sabe de doenças transmitidas por eles no meio rural. Mas sabe-se que as cidades contêm muita água parada. E que são verdadeiros focos de doenças transmissíveis.

Conclui-se que a economia – e não a saúde coletiva – moveu a drenagem das lagoas.

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