Revista Saúde Perss
CAPA | ENTREVISTA
Dr. Rogério Venancio
Cirurgião Plástico
CRM 52 31757-4

Revista Saúde Perss

Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ

arthursoffiati
as-netto@uol.com.br
CONVERSANDO COM A NATUREZA
Há mais de vinte anos, conversei com um senhor idoso, pobre, solitário e doente. Ele morava sozinho na margem da lagoa de Iquipari e sofria de asma. Disse-me que a natureza e ele conversavam. Perguntei como era essa conversa. Ele então me respondeu que era preciso aprender e que eu, longe da natureza nativa, demoraria muito a entender o que a natureza fala.

Creio que esse é um dos maiores problemas da nossa civilização globalizada. Nós somos natureza pelo nosso corpo. O mundo que criamos é povoado de objetos construídos com matéria-prima obtida na natureza. O lixo que jogamos em latões, na rua, nos rios e no mar são objetos usados e descartados, também provenientes da natureza. Vivemos numa natureza modificada que nos afasta da natureza autocriada. Alteramos o clima com nossas emissões de gases, e anualmente, enfrentamos enchentes, secas, furacões, tufões, nevascas crescentes que atacam nossas cidades e campos como se fossem aviões de guerra.

Os vírus também são naturais. Eles estão aprisionados em animais silvestres que escapam para o nosso mundo com a destruição dos ecossistemas em que vivem. Mesmo sendo criados em laboratório, eles não deixam de ser natureza. Vindos das florestas ou dos laboratórios, os vírus atacam o ser humano e encontram um ambiente altamente favorável à sua propagação. Primeiramente, as grandes cidades, onde as pessoas se concentram. No campo, a propagação é mais difícil. As cidades já aglomeram pessoas, mas elas, se aglomeram mais ainda em encontros com vários fins.

Hoje, os vírus viajam de avião e percorrem grandes distâncias sem serem vistos, sem precisar de passaporte. Eles viajam no corpo humano, que viaja no avião. Eles temem as vacinas, mas podem infectar as pessoas vacinadas com menos intensidade. Os vírus adoram grupos humanos não vacinados. Circulando neles, os vírus sofrem mutações e geram variantes, podendo exigir vacinas modificadas anualmente, como é o caso do vírus da influenza.

Os vírus conseguem driblar a vigilância dos mais experientes cientistas, como vem demonstrando o vírus do sars-cov-2. Ele age quase do mesmo modo em toda parte do mundo, mas surpreende virologistas, infectologistas, microbiologistas, imunologistas. Demora-se a aprender as artimanhas de um vírus, partícula não-orgância nem orgânica que se comporta como organismo. No início da atual pandemia, acreditávamos que ele estava colado na sola dos sapatos, que ele vivia no chão e nas superfícies ao alcance das mãos. Por enquanto, sabemos que ele se propaga pela respiração.

Mais ainda, o vírus adora os negacionistas. Aqueles que desdenham a ciência; mesmo sendo cientistas e médicos, comportam-se como curandeiros. Quando o governante de uma nação, ou de entidade menor que ela, desdenha o vírus, as condições de multiplicação para ele se tornam mais favoráveis. É o que vemos no Brasil, quando se afirma que o vírus causa apenas gripezinha, quando se retarda o processo de vacinação, quando se aproveita a pandemia para tirar proveito financeiro dela, quando se minimizam os danos causados pelo vírus, quando a vacinação de crianças é propositalmente demorado. O Brasil ilustra bem esse quadro.

Devemos ainda considerar as desigualdades sociais como ambiente favorável à difusão do vírus. Os ricos podem ganhar dinheiro à distância, protegidos da pandemia. Os pobres tornam-se cada vez mais pobres e são alvos mais fáceis para o ataque dessa partícula cega da natureza, desse ser/não-ser desprovido de ética. Ele não é um flagelo de Deus, mas fruto das nossas ações. Entre Deus e nós, urge considerar um terceiro elemento: a natureza e a nossa obra.

A natureza que nos antecede pode ser agressiva, mas também, nos protege. Então, nossas obras destroem a natureza e nosso mundo é invadido por sete demônios, como diz a Bíblia. O velho Domingos, morador nas margens da lagoa de Iquipari, tinha razão: precisamos aprender ou reaprender a conversar com a natureza.

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