Revista Saúde Perss
CAPA | ENTREVISTA
Dra. Lana Maria Pereira da Silva
Médica Psiquiatra
CRM 52 69489-4

Revista Saúde Perss

Dr. Joguimar Moreira dos Santos
Ginecologista, obstetra, lato sensu em sexualidade humana e mestrado em sexologia clínica
CRM 52 23623-2
Formado pela FMC

@joguimarmoreiradossantos
joguimar.moreiradossantos
joguimarsantos@hotmail.com
SEXUALIDADE E MAGIA
Said, era um menino muito inteligente, dinâmico, participativo, e, nas suas tentativas de entender as coisas que aconteciam, perguntava muito sempre, indo além do que podia entender, espontaneamente, a sua cabecinha de sete anos de vida.

Na sua infância, sempre havia uma época do ano para determinada brincadeira. Havia a época de soltar pipas, de jogar peões, de jogar bolas de gude, de cortar carrapichos, dos piques-bandeiras; mas, as peladas de futebol eram jogadas o ano inteiro.

Said tinha por hábito deitar de costas nas poucas gramas do campo de pelada, cruzar as mãos na nuca e ficava um tempão observando a movimentação das nuvens no céu, enquanto a meninada ia chegando. O céu lhe chamava mais atenção nas tardes de inverno, quando era mais bonito, com as nuvens mais brancas contrastando com o azul forte e com outras nuvens tingidas aqui e acolá pelos raios dourados do sol poente. Mas não era só a beleza do céu que chamava à sua atenção, mas, sobretudo, a movimentação fantástica das nuvens formando figuras colossais. Ursos, águias, corcéis, ovelhas, coelhos e rostos de Papai Noel e o de Deus, este, igual àquele do catecismo segurando o mundo com as mãos. As imagens formavam e desmanchavam-se como num passe de mágica.

Passados os anos, agora adulto, Said já não tinha mais o hábito de sentir a natureza como antes; o céu do nascente e do poente, as noites estreladas, o rio correndo vivo tangendo as folhas do ingazeiro e o cheiro da terra molhada das tardes chuvosas do verão.

Há muitos anos, vivendo na cidade grande, houve mudanças de hábitos de vida e como para quase todos os cidadãos urbanos, a natureza não é tão apreciada no dia a dia.

Foi numa manhã de domingo que Said, deitado na rede da varanda, parou de ler o jornal para fazer uma reflexão e seus olhos fixaram-se na visão do céu azul carregado de nuvens. Lembrou de sua infância tão bem vivida e das imagens que enxergava nas nuvens. Não conseguia mais vê-las por mais que se esforçasse, começou, então, a refletir sobre esta misteriosa transformação do céu de sua vida adulta e ficou triste.

Sexualidade e imaginação: sabemos da espontaneidade das crianças em improvisar momentos de magia. Cria em torno de si um mundo mágico e vive nele como se o fosse. Papai Noel, fadas, madrastas, bruxas, duendes, príncipes e princesas são personagens encantados do imaginário infantil. Os contos de fadas tão polêmicos, considerados “irreais, falsos e violentos” por muitos educadores. Em verdade “são para as crianças, o que há de mais real, algo que lhes fala, em linguagem acessível, do que é real dentro delas”. Neste mundo mágico, a criança tem os poderes da superforça, de voar, de ser invulnerável como os seus heróis da TV ou dos quadrinhos.  As crianças gostam tanto de viver que detestam a noite, porque representa para elas o fim da brincadeira, a hora do recolhimento.

Todos os médicos sabem da incidência crescente da depressão, como doença. Quando não é protagonista, é coadjuvante de outras, por que as crianças são alegres, amam intensamente a vida e quando chegam à adolescência vão perdendo a alegria espontânea e passam a sentir a depressão?

Sabe-se, que na adolescência, os “pensamentos mágicos”, segundo Piaget, vão cedendo lugar aos “pensamentos lógicos formais”. Isto não significa a morte total da magia e o domínio absoluto da formalidade e da lógica. “Se esperarmos viver não só cada momento, mas ter uma verdadeira consciência de nossa existência, nossa maior necessidade e mais difícil realização será encontrar um significado em nossas vidas” (Bettelheim).

O macho Homo não é um animal que funciona sexualmente só no cio da fêmea. Nem esta só permite o coito somente no estro. São animais culturais com todas as suas vantagens e desvantagens. Deve os humanos, se fortalecerem ante as cruéis demandas sociais e se transformarem, a cada dia, em bichos sonhadores. É possível sonhar a realidade que se pode ter. Mais do que isto, pode se expor ao risco da frustração.

Voltando a Said, e conhecendo mais detalhes de sua estória de vida, deduzimos que ele perdeu, como tantas outras pessoas, boa parte dos pensamentos mágicos, da imaginação. Podemos projetar nas nuvens a nossa imaginação e perceber aquilo que queremos ver e ter. É preciso fortalecer a cada instante o que funciona, isto é, o que é bom para nós e desprezar os pensamentos mórbidos. A sexualidade é contextual e necessita de fontes diárias de alimentação.

As imagens que Said via nas nuvens formavam-se, porque pertenciam ao imaginário de sua vida naquela época. Hoje, não pertencem mais. Quanto aos rostos barbudos: Papai Noel foi desmascarado e Deus não é mais o velho barbudo que segurava o mundo com as mãos.

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