Revista Saúde Perss
CAPA | ENTREVISTA
Dra. Lana Maria Pereira da Silva
Médica Psiquiatra
CRM 52 69489-4

Revista Saúde Perss

Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ

arthursoffiati
as-netto@uol.com.br
LIÇÕES DA PANDEMIA
Cada pandemia que assola a humanidade traz ensinamentos nem sempre retidos. Com a Covid-19, parece que aprendemos e desaprendemos muito. O que ainda precisamos saber é como o vírus sars-cov-2 chegou até nós. Veio da natureza ou de um laboratório? Seja qual for a sua origem, o primeiro ensinamento nos mostra que estamos perigosamente invadindo espaços naturais. Ou que vivemos numa civilização de alto risco. Um vírus que escapa de um laboratório pode afetar a humanidade toda, ainda mais com os meios atuais de disseminação.

O segundo ensinamento se refere aos modos de lidar com uma pandemia. Cada país teve um modo. No início, houve hesitações plausíveis. Houve um certo consenso quanto ao distanciamento físico das pessoas (com os meios de comunicação, nunca houve distanciamento social), mas não quanto ao uso de máscaras e ao recurso de medicamentos inócuos e até perigosos. Com a progressão da pandemia, quase todos os governos concluíram pelo distanciamento físico e pelo uso de máscaras, enquanto a vacina não chegava.

No entanto, alguns países assumiram posições temerárias: isolamento só para os idosos aposentados. Funcionamento da economia a todo vapor. Emprego de medicamentos anti-parasitas, seleção física de acordo com um primário darwinismo: os fracos morrem e os fortes sobrevivem. O governo central do Brasil adotou esta postura, assim com o negacionismo quanto a vacinas. Elas podem afetar a sexualidade e transformar pessoas em jacarés, por exemplo.

Já era esperado que, numa economia de mercado, as grandes farmacêuticas disputassem uma corrida. Em tempo recorde, várias delas produziram vacinas. Mas houve também propaganda enganosa sobre medicamentos ineficazes para viroses. Propaganda que beneficiou os fabricantes de tais medicamentos. Nos dois casos, os mecanismos de mercado foram muito ativados. Para as vacinas, funcionou bem. As empresas que as produziram são vistas hoje como heroínas. As empresas que investiram em fármacos ineficazes saíram como vilãs.

Mas, como era de se esperar numa economia de mercado, houve também negociatas e corrupção. As vacinas são perigosas se adquiridas legalmente, mas não se adquiridas com propina, foi o que aconteceu no governo federal do Brasil. Até o momento, o Ministério da Saúde se situa no segundo grupo. Tanto a falta de ações corretas quanto as suspeitas de corrupção levaram o Senado brasileiro a instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito.

Mas houve hesitações em outros países. Houve avanços e recuos na adoção de medidas restritivas. Houve comportamentos temerários por parte da população em vários lugares. Houve festas, houve concentrações perigosas. Houve cansaço. O vírus circulou com mais intensidade e gerou variantes, o que é perfeitamente esperado. Embora não vivos, mas orgânicos, os vírus estão sujeitos a rápidos processos de transformação. As vacinas foram concebidas para o vírus original. Agora, a variante delta rapidamente se dissemina e levanta a discussão sobre a eficácia das vacinas.

Aliás, ainda não se sabe se as vacinas bastarão com a aplicação de uma ou duas doses ou se aplicações anuais serão necessárias, assim como acontece com as variantes do vírus da gripe.

Com relação ao futuro, as perspectivas não são promissoras. O vírus e suas variantes mostraram como a civilização ocidental globalizada é vulnerável, por mais que ostente arrogantemente fortaleza. A pandemia está sendo tratado como um entrave ao crescimento econômico e não como uma advertência aos rumos seguidos. Discutem-se cuidados com florestas e fauna silvestre; atenção quanto à criação de animais em cativeiro; mudança na matriz energética; novos hábitos de consumo etc. Mas parece que tudo continuará como antes. O mundo não se tornará mais seguro depois da pandemia, mas talvez, mais vulnerável a outras.

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