Revista Saúde Perss
CAPA | ENTREVISTA
Fabrício Bastos
Educação Física
CREF/RJ 02 6331

Revista Saúde Perss

Dr. Joguimar Moreira dos Santos
Ginecologista, obstetra, lato sensu em sexualidade humana e mestrado em sexologia clínica
CRM 52 23623-2
Formado pela FMC
joguimarsantos@hotmail.com
A IDEALIZAÇÃO DO AMOR
Nossa história aconteceu numa cidadezinha do interior do estado do Rio de Janeiro. É a história de Carolina uma adolescente de 13 anos, morena de olhos grandes, cabelos lisos, negros, faces bem composta, muito educada e introvertida.

Carolina, às tardezinhas, quando as andorinhas faziam verão na praça, não havia pardais, debruçava na janela da esquina do segundo andar de onde se podia ver toda a praça e as ruas frontais. Ela, que estudava no turno da manhã, ficava todos os dias esperando a saída das turmas do turno da tarde. A verdade é que Carolina esperava sempre para ver o José Américo que namorava a Carmem e vinha sempre sentar no banco do jardim bem próximo de sua janela.

Carolina amava o José Américo, que amava a Carmem. Admirava o seu tipo esguio, cabelos castanhos claros meio ondulados, afável, altura mediana, bom aluno, discursava nas festas cívicas do Grêmio Escolar. Mas o que mais cativava Carolina era a maneira atenciosa com que tratava a Carmem e as formas de carinho, extremamente sensuais, que lhe dispensava.

Carolina não conseguia namorar outro garoto, pois nenhum era como o José Américo. Seu tipo físico, sua maneira de falar, seu comportamento cortês, sua forma de beijar e acariciar a Carmem, não, ninguém era igual a ele.

Em um certo dia, a família do seu ídolo mudou-se para Goiás, seu pai havia comprado uma grande fazenda de gado. Carolina entrou em profunda depressão e nunca conseguiu amar alguém. Carmem casou-se com outro, o José Carlos da fazenda Barro Branco. Passaram-se os anos, mas Carolina não perdia o hábito de debruçar na janela do casarão todas as tardes e relembrar do amado que se foi.

Passados trinta anos, o prefeito da cidade realizou uma grande festa para promover o I Encontro dos Conterrâneos Ausentes. Carolina soube que o José Américo havia confirmado presença. Os dias que se aproximavam eram cheios de ansiedades, de mil pensamentos que iam e voltavam na cabeça de Carolina, agora com quarenta e três anos de idade.
Chegou o dia da festa. A cidade estava bem movimentada e o festejo começou com a banda de música fazendo a alvorada acordando a todos com o hino da cidade e o pipocar dos fogos de artifícios. Às 8h foi realizado a missa na matriz. Carolina procurou entre as rezas, os cantos e os santos o José Américo. Por mais que os seus olhos procurassem em cada canto da igreja, ela não o encontrava.

Na saída da igreja, encontrou muitas pessoas que não via há anos e, dentre elas, a irmã do procurado rapaz, então argumentou:

— Clarisse, eu ainda não vi a dona Clarinda e o José Américo.

 Mamãe sentiu um pouco da viagem e está na casa da dona Cissí e o Américo está na fazenda São Jerônimo ajudando preparar o churrasco do encontro.Carolina sentiu uma forte emoção que cuidou de não demonstrar para os presentes.

Quando o relógio da matriz badalou 12h, Carolina agrupou-se com as amigas e partiram para a São Jerônimo. A fazenda tinha uma bonita sede estilo colonial, com arvoredos no pomar, onde se destacava uma mangueira gigante que formavam uma grande sombra onde se reuniam a maioria das pessoas perto da churrasqueira.

As moças desceram do carro e foram cumprimentando com abraços e beijos os antigos conhecidos que iam encontrando pelo caminho. De súbito, Carolina ouve uma voz grossa e meio rouca:

 Carolina sua balzaquiana da peste, diacho de mulher enrolada, soube que você não casou, está procurando um homem até hoje e não encontrou um que te agradasse. Era o seu grande amor Jose Américo que aproximava dela com dois grandes espetos de churrascos. Um, ele lhe ofertou; o outro, ele mordia voraz os pedaços de carne que mastigava enquanto falava.

Carolina quase não o reconheceu. Estava um homem gordo, com imensa barba matizada de branco, lambuzada de gordura e bebida, falava alto, enquanto comia e bebia, evidenciando a rudeza de comportamento que adquirira, certamente, numa região inóspita entre peões de boiadeiros na lida com o gado nos sertões de Goiás.

Não, aquele não era o José Américo de seus sonhos, o seu modelo de homem, a sua referência lúdica. Não era o adolescente gentil, atraente, solícito, carinhoso um personagem quase Shakespeareano que ocupou os seus mais lindos sonhos desde os tempos de menina-moça.

Agora com esta tirada “Carolina, sua balzaquiana da peste” foi como um grito medonho que a despertou  da sublimidade de um sonho construído anos a fio da janela do casarão olhando para o banco do jardim. Carolina enlutou-se pela perda do José Américo da sua adolescência. Perdeu a sua identificação projetiva com um parceiro que elegeu para fazer parte de sua história pessoal.

Os dias se passaram, era primavera. O sol dourava por trás da torre da matriz toda a praça; as andorinhas festivas faziam os mais variados arranjos de verões, as crianças brincavam alegres entre os canteiros do jardim, mas Carolina não ficava mais na janela e o José Américo não sentava mais no banco da praça.

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