Revista Saúde Perss
CAPA | ENTREVISTA
Fabrício Bastos
Educação Física
CREF/RJ 02 6331

Revista Saúde Perss

Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ
as-netto@uol.com.br
A VULNERABILIDADE DA GLOBALIZAÇÃO
No início do século XV, o ocidente iniciou o processo de globalização atual do mundo sem saber que inaugurava esse processo. As doenças acompanhavam os ocidentais quer em seus próprios corpos quer nos animais embarcados, oficial ou clandestinamente, nas caravelas. No contato com povos da América e da Oceania, essas doenças encontraram campo virgem para se desenvolver. Milhões de pessoas morreram ao contraírem gripe, sarampo e varíola, principalmente. Esse genocídio não mereceu o mesmo destaque que os dos judeus e do armênios.

Hoje, o ocidente está em todos os rincões do mundo. Por mais que encontremos traços culturais locais, a economia é a mesma, ou seja, uma economia de mercado que se combina com democracia e com autoritarismo, riqueza com pobreza. Em seis séculos, a complexidade aumentou de forma exponencial. Quanto mais complexo, mais vulnerável é um sistema.

Combinemos essa vulnerabilidade com as três características básicas da economia de mercado: o consumismo, o individualismo e o imediatismo. Um dos segredos da Finlândia em enfrentar a pandemia causada pela Covid-19 foi o hábito fazer estoques desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Hoje, o imediatismo abomina a estocagem. Ela ocupa espaço e se torna obsoleta. É mais fácil fazer encomendas pouco antes do esgotamento dos estoques. Para tanto, é preciso previsibilidade. Se ocorrer um evento imprevisível, os centros produtores não dispõem de tempo para atender aos pedidos. É o que está acontecendo na atual pandemia. Os centros produtores não conseguem produzir equipamentos de proteção individual, respiradores, oxigênio, relaxantes, produtos com princípio ativo e principalmente, vacinas. A rede hospitalar não dá conta de atender a pessoas infectadas.

Outro calcanhar-de-aquiles da globalização é a especialização de áreas produtoras. Alguns países estão se especializando no fornecimento de produtos primários, as chamadas commodities. A China e a Índia são os grandes produtores de equipamentos e insumos. Se alguma catástrofe climática ou algum excesso de demanda pressionar uma dessas áreas, o que se torna cada vez mais frequente, ela não conseguirá abastecer devidamente os consumidores. Num mundo com quase oito bilhões de habitantes, torna-se praticamente impossível atender a todos, de imediato, com equipamentos, insumos e vacinas.

Outra vulnerabilidade é a rapidez das comunicações e dos transportes. Se a peste negra se disseminou em 15 anos na Ásia, Europa e norte da África, viajando a pé e a cavalo; se a Gripe Espanhola viajou de navio, o vírus sars-cov 2 viaja de avião. Os voos internacionais o transportam de um país para outros. Os voos domésticos se incumbem de disseminá-lo dentro de cada país. Notemos que as áreas mais afetadas do mundo no inicio da pandemia situam-se no hemisfério norte: China, Japão, Europa Ocidental e Estados Unidos. Agora, ela castiga países do sul, como Brasil e Índia.

Mais uma vulnerabilidade da globalização é a falta de ação coordenada. A economia unificou o mundo, mas ele continua dividido em estados nacionais. A Organização Mundial de Saúde é a entidade que representa essa ação coordenada. Mas nem todos os estados nacionais seguem sua orientação. Vejamos o caso do Brasil e da Índia, onde os governos centrais contribuem para a disseminação do vírus.

A economia age de forma contraditória. No afã de crescer e de obter mais lucros, ela invade e destrói áreas que deveriam ser protegidas. Essa invasão libera organismos patogênicos que geram epidemias e pandemias. O vírus é um organismo muito simples que sabe como agir sem saber que sabe. As epidemias e pandemias reduzem a velocidade da economia. Em síntese, a velocidade gera a redução da velocidade, como numa caixa d’água: quando vazia, a água a enche com velocidade, mas a boia a paraliza ao ser alcançado o nível de transbordamento.

O vírus da Covid-19 está atuando como a boia. Ele está anunciando que o sistema global é vulnerável e está ultrapassando limites. Convém repensar profundamente os rumos da globalização quando e se a pandemia for controlada.

Compartilhe

Fale Conosco

Para conhecer mais sobre a nossa revista, enviar dúvidas, sugestões ou comentários você só precisa preencher os campos do formulário abaixo.