Revista Saúde Perss
CAPA
Laboratório Pedra Verde

ENTREVISTA
Dr. Marco Antônio Neves Iack
Farmacêutico Bioquímico
CRF-RJ 6597
Revista Saúde Perss

Dr. Pedro Bastos
Neurologista
CRM 52 88648-3
Pós graduado em neurologia pela UFF
drpedrobastos@hotmail.com
CEFALEIA CRÔNICA DIÁRIA POR ABUSO DE ANALGÉSICOS
Algum tempo atrás, atendi uma cliente que trazia sua queixa de dor de cabeça que já a incomodava há muitos meses, tendo sido submetida a diversos tratamentos, com inúmeros profissionais. Trazia ainda inúmeros exames como: ressonância magnética, tomografias, entre outros, todos dentro da normalidade. Infelizmente, o quadro não se resolvia, pelo contrário, a incomodava cada vez mais. Mas afinal, o que ocorria com aquela paciente?

A utilização de medicamentos sem a devida prescrição médica, infelizmente. é rotina em nosso meio. Neste contexto, os analgésicos são os de maior apelo, visto a facilidade de aquisição, os preços relativamente acessíveis e a necessidade iminente frente a um quadro álgico qualquer. E é neste contexto que se insere o nosso assunto: a CCDAA (Cefaleia Crônica Diária por Abuso de Analgésicos).

Quando utilizados de forma inadequada, abusiva, excessiva ou prolongada os medicamentos destinados ao tratamento sintomático das dores de cabeça, constitui a causa principal de cronicidade e resistência medicamentosa. Trocando em miúdos, isto significa que, dependendo da quantidade e do tempo em que se utilizam os analgésicos podem se transformar em um potencial causador de dor. Acredita-se que a CCDAA acomete cerca de 1 a 2% de toda a população mundial, sendo o principal mecanismo de cefaleia crônica - aquela que acomete no mínimo 4h por dia em mais de 15 dias num mês.

Acometendo até 4 vezes mais as mulheres que os homens,  àquelas acometidas pela enxaqueca são ainda mais impactadas. Sabe-se que estas mulheres são mais sensíveis a dor e tendem a abusar mais do uso de analgésicos. A cefaleia é em si mesmo variável em severidade, tipo e localização. Pode ser descrita como um peso difuso, diário, sem outros sintomas associados, ou ser interceptada por episódios mais intensos de dor acompanhados de fono e/ou fotofobia, náuseas e/ou vômitos sugerindo crises de enxaqueca, que correspondem a uma abstinência transitória. Um pequeno esforço físico ou intelectual pode desencadear a cefaleia, o que sugere uma diminuição do limiar para a dor. A tolerância progressiva aos analgésicos vai levar o doente a aumentar a dose com o objetivo de obter algum alívio, ainda que transitório. Há, frequentemente, queixas associadas como: astenia, inquietude, irritabilidade, dificuldade em concentração e mesmo, depressão. São frequentes os despertares noturnos entre às 2 e às 5h da manhã pela cefaleia.

Todos os medicamentos utilizados no tratamento sintomático de dor são capazes de perpetuar as cefaleias (embora reconheça que alguns são mais envolvidos que outros) desde que, utilizados de uma forma excessiva, e principalmente, se regular e continuada. Reforça-se ser mais importante a cadência contínua de utilização do que propriamente a dose individual.

Para além da problemática das cefaleias em si, a utilização crônica destes fármacos vai induzir iatrogenia noutros órgãos e sistemas, sendo bem conhecida dos clínicos a nefropatia dos analgésicos, a hepatotoxicidade do paracetamol, os problemas gastrintestinais e hemorrágicos comuns aos salicilatos e aos AINES, as perturbações vasculares periféricas, colite isquêmica, as alterações dos ritmos do sono e vigília com a cafeína e os tranquilizantes dentre outros.

Nem sempre é fácil reconhecer tal problema, já que a história é frequentemente omitida pelos doentes. Uns o fazem de forma inconsciente pela não percepção da relação de causalidade, outros, mais esclarecidos omitem por noção de culpabilidade, e alguns mais resistentes, têm um comportamento de negação semelhante a outros tipos de adição. Deve-se ficar alerta perante um doente com cefaleias crônicas com várias consultas e tratamentos prévios ineficazes, particularmente, perante a existência de episódios semelhantes a enxaqueca, acima de seis crises por mês. A melhor forma de confirmação consiste em solicitarmos ao doente para preencher um diário de cefaleias onde são registradas as dores, intensidade e duração das mesmas, horário e todos os medicamentos tomados.

Além de interrupção abrupta do uso de analgésicos, o tratamento é sintomático para a primeira semana, seguido ou em simultâneo com introdução de terapêutica preventiva que vai durar meses. Após a desintoxicação e tratamento, a maioria dos doentes vai passar bem, registrando uma melhoria significativa nos três meses seguintes.

O caso da minha paciente me fez refletir sobre o quão desconhecido é esta condição que, do ponto de vista neurológico, não chega a ser incomum. 

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