Revista Saúde Perss
CAPA
Laboratório Pedra Verde

ENTREVISTA
Dr. Marco Antônio Neves Iack
Farmacêutico Bioquímico
CRF-RJ 6597
Revista Saúde Perss

Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ
as-netto@uol.com.br
A QUINTA PANDEMIA DA GLOBALIZAÇÃO
Na história da humanidade, ocorreram epidemias causadas por vírus, bactérias e protozoários. Uma epidemia tem alcance regional e pode se adquirir um caráter endêmico. Já as pandemias se disseminam por um espaço que transcende nações, estados e impérios. Hoje, temos conhecimento de epidemias que assolaram civilizações no passado, como as epidemias do Egito e da Mesopotâmia. A mais famosa de todas foi a epidemia de peste que se abateu sobre Atenas antiga, matando o grande estadista Péricles. Ela deve ter se expandido, mas não teve um caráter pandêmico.

A rigor, a primeira pandemia foi a Peste Justiniana no século VI d.C. Ela causou muitas mortes no Império Romano, que então se reduzia à atual Turquia, mas atingiu a Ásia, a África e a Europa. A América e a Oceania não estavam ainda incluídas na globalização. A segunda foi a famosa Peste Negra, que conhecemos bem, mas que consideramos apenas ter atingido a Europa ocidental. Ela atingiu também a África, o Oriente Médio, a Índia e a China. Americanos e Australianos ainda continuavam em seu esplêndido isolamento.

A terceira foi a Peste do século XIX, que começou na fronteira da China com o Tibete e se espalhou por todos os continentes. Curiosamente, a Europa não foi atingida. Estados Unidos e Brasil não escaparam dela, mas souberam contê-la. Foi esta pandemia que permitiu ao médico franco-suíço Alexandre Yersin identificar a bactéria causadora da peste bubônica em Hong Kong. As três pandemias apontadas foram causadas por peste bubônica, que ainda existe, mas de forma controlada. Tratado com antibióticos no seu início, o paciente pode ser curado.

Daí em diante, os vírus assumiram a responsabilidade pelas pandemias. A gripe passou a ser endêmica, embora o vírus seja extremamente mutante. Daí a vacina anual contra as novas cepas. A primeira pandemia viral foi a Gripe Espanhola, que atingiu o mundo todo entre 1914 e 1918, matando cerca de 50 milhões de pessoas numa população mundial de 1.800 bilhão. Ela viajou de navio e atingiu os portos primeiramente. Daí, embarcou em trens para chegar ao interior. Calcula-se que ela tenha matado 35 mil pessoas na cidade do Rio de Janeiro.

        Daí em diante, o mundo foi ameaçado por epidemias com potencial pandêmico, como a Gripe Asiática, a AIDS, a dengue, a zika e a chikungunya. Em 2002, eclodiu uma epidemia causada pelo vírus Sars-CoV-1; em 2012, outra pelo vírus Mers-CoV, ambas com potencial pandêmico, mas contidas. Agora, o mundo é invadido pelo Sars-CoV-2. Ela começou na China em fins de 2019. Há quem defenda que ela apareceu antes. No princípio, a Organização Mundial de Saúde acreditou que ela teria apenas caráter epidêmico, ficando restrita à China. Agora, usando avião, o vírus alcançou todo o hemisfério norte, afetando Rússia, Europa Ocidental e Estados Unidos, que são as áreas do globo mais interligadas. Mas o hemisfério sul acabou sendo afetado. Austrália, Nova Zelândia, Índia, África e Brasil entraram na pandemia. Brasil e Índia são os países que mais registram mortes depois dos Estados Unidos.

Apenas dez países ficaram livres do vírus: Palau, Micronésia, Ilhas Marshall, Nauru, Ilhas Salomão, Tuvalu, Samoa, Vanuatu, Tonga e Kiribati, todos eles pequenos países da Oceania. Sendo pouco povoados e vivendo do turismo, os respectivos governos fecharam os respectivos aeroportos para impedir a entrada de estrangeiros. Não houve casos de covid-19 nesses países até o momento. Contudo, a crise econômica os aflige. Como ninguém entra nem sai, a economia está abalada.

         A esta altura da pandemia, já pode-se concluir que ela, como as anteriores, começaram na natureza, com a saída do transmissor e com sua entrada na sociedade humana. As relações humanidade-natureza estão cada vez mais promíscuas, representando um fator de alto. É previsível que enfrentemos novas pandemias em futuro breve. A circulação de microrganismo também se tornou mais fácil e rápida. As grandes cidades representam ambiente ideal por contarem com aglomerações humanas, pobres e idosos. A cultura ocidental dificulta a reclusão. Governos se comportam de forma irresponsável e cruel, como nos Estados Unidos, Brasil e Belarus. É difícil acreditar que o mundo vai mudar depois dessa pandemia. Cabe voltar ao assunto dada a sua importância.

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