Revista Saúde Perss
CAPA
Espaço Viver Bem

ENTREVISTA
Dr. Paulo Roberto Hirano
Gastroenterologia e Hepatologia
CRM 52 242474
& Equipe Multidisciplinar
Revista Saúde Perss

Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ
as-netto@uol.com.br
NA PONTA DOS PÉS
         No final do filme “Três homens em conflito”, dirigido pelo genial Sergio Leone, há um duelo entre o bom, o mau e o feio. Sem que o feio, perceba, o bom retira as balas do seu revólver para que ele se preocupe apenas com o mau. Claro que o mal morre e o feio não tem como reagir, pois está sem munição em sua arma. O duelo ocorre num cemitério. O bom obriga o feio a se equilibrar no braço horizontal de uma cruz e amarra seu pescoço numa corda presa a uma árvore. Se ele tentar se livrar da corda, cairá da cruz e morrerá enforcado. O bom lança no chão a parte do dinheiro que cabe ao feio, mas esse, na ponta dos pés sobre a cruz e com uma corda ao pescoço, não pode se apossar da parte que lhe cabe.

         Estamos diante do mito de Tântalo, rei da Frígia ou da Lídia, que ofereceu a carne do próprio filho num banquete e foi castigado. O castigo consistia em viver no meio da abundância e não poder saciar sua sede e fome, pois sempre que se aproximava da água, ela escoava, e dos frutos das árvores, seus galhos se moviam. Ele estava condenado a sentir sede e fome em meio à água e ao alimento.
 
Tântalo viveu um suplício assim como o feio, que tinha o dinheiro diante de si, mas se tentasse apanhá-lo cairia da cruz e morreria enforcado. Porém, ao se afastar, o bom corta a corda do seu pescoço com um tiro. A humanidade está na ponta dos pés. Os ricos não percebem que estão nessa posição, porque podem envelhecer bem, pagando bons médicos, alimentando-se bem e comprando medicamentos. As doenças derivadas de problemas ambientais são ignoradas por eles até que lhes advenha a morte.
 
Já, quanto aos pobres, é outra a situação. A base da pirâmide etária se estreita e a ponta se alarga. As pessoas estão vivendo mais. Chegar aos 50 anos há dois séculos anos atrás era raro. As doenças contagiosas matavam mais que hoje. A medicina não havia atingido os patamares de hoje. As vacinas e os antibióticos mantêm vivas pessoas que morreriam sem elas.
 
Não apenas isso. Atualmente, remédios contra a hipertensão, o colesterol e o diabetes são acessíveis às pessoas de baixa renda.
 
Mesmo assim, os pobres estão na ponta dos pés sobre o braço da cruz como o personagem do filme. Se a pirâmide etária mostra que as pessoas estão vivendo mais, a pirâmide de renda mostra uma distribuição muito desigual de recursos. O saneamento básico nos bairros pobres é sofrível ou inexistente, notadamente nos países periféricos.
 
O ambiente em que vivem os pobres também não favorece a qualidade de vida. Costuma ficar longe do local de trabalho e carece de transporte público eficiente. As habitações também estão abaixo das necessidades mínimas. A obesidade atinge mais os pobres que os ricos. Ela se tornou uma doença que gera doenças. A alimentação não tem boa qualidade. Ela vem do campo com agrotóxicos e aditivos químicos. É rica em carboidratos e em gorduras. Industrializada, ela recebe mais coadjuvantes nocivos à saúde. O pobre pode comer muito, mas come mal.
 
O senso comum entende saúde como sinônimo de medicamentos, postos de emergência e hospitais. No entendimento dos políticos, saúde é basicamente curativa e não preventiva. Prevenir corresponde a enorme economia de recursos públicos. Mas, mesmo no que tange ao entendido comumente como saúde – a curativa –, as redes públicas são sempre deficientes, para não dizer que vivem à beira do colapso. Faltam materiais básicos, medicamentos, atendimento adequado, leitos e aparelhos.
 
Por outro lado, os ricos conseguem arcar com despesas vultosas referentes a planos de saúde, a hospitais e a medicamentos. Assim, como no filme, os pobres se equilibram na ponta dos pés, desejando velhice saudável e confortável, como se fossem Tântalo perseguindo não água e alimento, mas melhor qualidade de vida.

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