Revista Saúde Perss
CAPA / ENTREVISTA
Dr. Vinícius Alcantara Cunha Lima
Ortodontista
CRO-RJ 31 162

Revista Saúde Perss


Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ
as-netto@uol.com.br
VÍRUS
Há 600 anos, estamos em guerra. Não uma guerra de humanos contra humanos como as atuais guerras da Síria e do Iêmen. Não uma guerra curta, como a Guerra dos Sete Dias, de Israel contra países árabes. Vivemos a mais longa guerra da história. Uma guerra da humanidade contra a natureza. Nossa impressão é a de que estamos vencendo. Mas a natureza é mais astuciosa do que podemos pensar. Ela conta com tropas de elite. Uma delas é formada pelos vírus.

Os vírus são estruturas submicroscópicas não visualizadas por microscópios ópticos. Eles só podem ser alcançados por microscópios eletrônicos. São bem mais simples que uma célula. Há organismos unicelulares, mas os vírus nem organismos podem ser considerados. Para atuar, eles parasitam as células, sem as quais não podem se multiplicar. Fora de uma célula, os vírus são inertes, mas dentro de uma, eles se replicam de forma impressionante, assim como seu poder de infectar. Todos os outros organismos podem ser atingidos por eles. Existe descomunal diversidade de vírus no mundo, inclusive nos oceanos.

Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, considerado um dos maiores virologistas do Brasil, diz que os vírus estão no topo da cadeia alimentar. A civilização ocidental levou o homem genérico à arrogância de se colocar no topo dos topos da cadeia alimentar. Os carnívoros, como a onça e o tubarão, estão no topo da cadeia. Estar no topo significa deter o poder de matar e comer. O ser humano mata, come, empalha aqueles que matam e comem. Neste sentido, os vírus não estão no topo. Eles podem matar, mas não comem. Na verdade, os vírus envolvem os seres vivos por todos os lados e estão prontos para atacá-los, adoecê-los e matá-los. Os antibióticos não conseguem combatê-los. É inútil tomar antibiótico para curar gripe. Apenas as vacinas são eficazes contra eles.

E o mundo está cada vez mais sujeito às epidemias causados por vírus diversos. As doenças causadas por eles deixaram de ser endemias, restritas a locais do mundo, geralmente, zonas rurais. Eles ganharam as cidades. Eles viajam de ônibus, metrôs, trens, navios e aviões. Vários são os motivos para a propagação de vírus pelo mundo, notadamente em países pobres ou em áreas pobres deles. Primeiramente, a urbanização provocou grande êxodo rural. Hoje, existem mais pessoas vivendo em cidades que no campo. Nos países pobres, as péssimas condições sanitárias favorecem a proliferação de vetores de vírus, como os mosquitos.

Os contatos interpessoais também são grandes, incluindo os sexuais. As florestas, que retêm os vírus em seu âmbito, estão sendo velozmente reduzidas.

O mesmo Pedro Fernando da Costa Vasconcelos adverte sobre a importância das florestas. Segundo ele, não sabemos conviver com elas. Tratamo-las como antro de perigo e de doença. O desmatamento pode transformar um ciclo florestal em ciclo urbano. Mas, não apenas os pobres correm perigo. Os vetores se propagam, disseminado os vírus. Grande parte do mundo está ameaçada por doenças virais, como: a gripe de diversos tipos, a dengue, a zika, a chikungunya, a febre amarela, o ebola, a aids (que volta a crescer), o sarampo, a hepatite e tantas outras. Agora também o mayaro.

No Brasil, a luta contra os vírus está sendo perdida pelos humanos. Eles grassam em meio urbano e periurbano. A hepatite C está crescendo no Brasil. O ebola está novamente a África. A hepatite C assola o Brasil. Existe uma íntima ligação entre as condições ambientais e a propagação de vírus. As fronteiras nacionais não mais os retêm em cada país. A globalização favorece a sua disseminação. O desmatamento os expulsa das matas. As cidades com saneamento deficiente os convidam a viver nelas.

Várias são as ameaças ao sistema Terra. Naturalmente, ele pode sofrer por terremotos, tsunamis e bombardeios de asteroides. Nós podemos transformá-lo perigosamente com as mudanças climáticas, com a poluição de todos os tipos, com a pobreza e a miséria, com guerras, com empobrecimento da biodiversidade. Podemos também, criar condições para a propagação de vírus.

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