Revista Saúde Perss
CAPA / ENTREVISTA
Dr. Vinícius Alcantara Cunha Lima
Ortodontista
CRO-RJ 31 162

Revista Saúde Perss

Bruna Telles Fiuza
Psicóloga
CRP 05/52042
Diplomada pela Universidade Federal Fluminense
brunatf@id.uff.br
DESVENDANDO A SOMATIZAÇÃO E A PSICOSSOMATIZAÇÃO
Influenciados culturalmente e historicamente, costumávamos pensar no corpo e na mente como entidades distintas, como se o corpo físico e a vida mental nada tivessem a ver um com o outro. Por muito tempo, seguimos pensando que as doenças eram causadas exclusivamente, por vírus, bactérias, pela má alimentação, enfim, que seriam causados prioritariamente por fenômenos externos. Entretanto, com os estudos cada vez mais avançados, tanto na área da psicologia como na área da medicina, entendemos hoje que nosso corpo também responde negativamente aos fenômenos internos. Sentimentos de culpa, ressentimentos, julgamento, crítica, raiva, mágoa, indignação e outros tipos de emoções hostis ou motivações inconscientes são capazes de gerar sintomas corporais.

A clínica psicanalítica corrobora esse ponto de vista ao nos apresentar, na prática, como corpo e psiquismo estão integrados, através da observação de pacientes que apresentam sintomas corporais cujas causas não são encontradas no corpo. A este fenômeno chamamos de somatização, isto é, a experiência de sintomas físicos que não parecem ter uma causa orgânica. Tais sintomas não estão, portanto, associados a um problema médico, tampouco podem ser explicados por condições médicas ou pelo uso de substâncias. Antes, estão relacionados à dor e ao mal estar que produzem sintomas físicos, não desvendados por uma observação do corpo. São exemplos de somatizações: náusea, soluço, diarreia, constipação intestinal, taquicardia, entre outras.

De modo um pouco diferente, existem ainda as doenças psicossomáticas. Estas, por sua vez, além de terem no psiquismo a causa para sua aparição, sua ocorrência provoca lesões no órgão acometido. Isso não significa, porém, que as psicossomatizações não sejam detectáveis através de exames clínicos ou laboratoriais, mas sim, que não são encontradas na soma as causas para o surgimento delas. A pessoa passa a sofrer com a doença física, como por exemplo, a dor e os incômodos causados por uma úlcera, mas não entra em contato com o conflito e nem com a angústia, que fica depositada no órgão lesionado. Os fenômenos psicossomáticos constituem parte significativa da clínica contemporânea, demonstrando como o corpo pode se tornar lugar privilegiado do sofrimento.

O elo entre psiquismo e corpo, muito explorado por Freud, pai da psicanálise, tratou de teorizar sobre o trânsito entre eles e mostrar que o inconsciente fala através das somatizações. De acordo com essa teoria - uma das mais utilizadas em psicologia até hoje - algo da ordem do simbólico que o psiquismo não foi capaz de lidar, luta por sua saída do inconsciente, encontrando como alternativa nesse processo, o acontecimento físico do sintoma. O padecimento psicossomático surge quando o indivíduo se vê impossibilitado de representar e simbolizar o sofrimento psíquico. As reações psicossomáticas representam, então, no real do corpo, através das dores físicas e lesões, aquilo que é rejeitado pelo simbólico. Quando a mente se cala, é o corpo que fala.

Tendo em mente todas essas informações e sabendo que, a somatização e a psicossomatização são reflexos dos problemas emocionais com os quais não pudemos lidar direito, buscar tratamento adequado é essencial. Ao surgirem doenças ou sintomas corporais deve-se buscar o médico. Ele se encarregará de avaliar e apontar, quando for o caso, se os sintomas possuem causa de ordem psicológica. Após o diagnóstico, portanto, deve-se procurar acompanhamento psicológico e manter o tratamento médico indicado, uma vez que a doença (ou apenas sintoma) realmente existe e exige tratamento clinico. Por outro lado, é de suma importância ressaltar que, em se tratando de doença ou sintoma de origem psicológica, a psicoterapia ou psicanálise são estritamente necessárias, para que a pessoa possa abordar seus conflitos no plano psicológico, deixando de jogá-los no corpo (soma).

Por fim e não menos importante, faz-se necessário ressaltar que a pessoa que padece de algum sintoma psicossomático realmente sofre. Seu sofrimento é real, mesmo que ele não tenha suas causas explicadas pela medicina. Assim como cuidamos do corpo, também precisamos cuidar da nossa saúde mental.

Doenças são palavras não ditas. (Jacques Lacan).

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