Revista Saúde Perss
CAPA | ENTREVISTA
Dr. Marco Antônio Neves Iack
Farmacêutico Bioquímico
CRF-RJ 6597
Revista Saúde Perss
Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ
as-netto@uol.com.br
AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E SAÚDE HUMANA
Em outubro de 2018, o Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas, órgão ligado à ONU, demonstrou de forma inequívoca, no documento “Aquecimento Global de 1,5°”, que as emissões de gases do efeito estufa devem ser zeradas até 2050. Caso contrário, a humanidade e a biodiversidade estarão seriamente ameaçadas. Quais são as ameaças? O derretimento das geleiras polares e continentais, bem como a dilatação dos oceanos pela elevação das temperaturas, provocarão a redução das áreas continentais. Com isso, ecossistemas importantes desaparecerão ou serão obrigados a se transferir, como é o caso dos manguezais.

        Haverá uma intensificação dos fenômenos climáticos extremos, como: chuvas intensas estiagens causticantes, tempestades de vento e aumento das ressacas. Os bancos de corais, que proporcionam a biodiversidade marinha e a produção de alimentos colhidos nos oceanos, devem sofrer impactos fatais. As florestas que ainda restam no mundo tenderão a se transformar em formas vegetais mais ralas. A agropecuária, que tem crescido sobre savanas e florestas, deve decrescem em termos de produção e produtividade.

         Essas transformações já estão se operando sob nossos olhos, mas não as relacionamos ao estilo de vida ocidental que se globalizou. No afã de obter mais lucro, empresários e países agravam mais a crise ambiental da atualidade, que não se restringe às mudanças climáticas. No documento do IPCC, os cientistas alertam que não basta apenas reduzir as emissões de gases do efeito estufa. É necessário também recolher os gases na atmosfera. No entanto, os governos e a humanidade não acreditam em tais mudanças. Se ocorressem uma epidemia global ameaçando a vida das pessoas, um cataclismo de grandes proporções com a morte em massa se seres humanos ou uma guerra nuclear, o perigo claro e imediato convenceria as pessoas. Mas, a crise ambiental progride a conta-gotas. A velha história do sapo numa panela que se aquece aos poucos ilustra bem o problema. Será mesmo verdade que existem essas tais de mudanças climáticas globais ou os cientistas estão nos alarmando? É o que pensam governantes e a média da população.

         No entanto, os efeitos danosos já começaram a se manifestar. Intensas ondas quentes ou frias, como as que estão ocorrendo nos países temperados, têm provocado a morte de crianças e idosos por estresse térmico. As intensas chuvas ou secas se abatem sobre a produção de alimentos associada ao crescimento da população mundial e à má distribuição deles, acarretando fome e subnutrição. As tempestades de vento estão se tornando mais destruidoras a cada ano na zona temperada do norte. Nos Estados Unidos, são os furacões e os incêndios. No extremo oriente, são os tufões e ciclones. Muitas pessoas morrem e bens materiais são destruídos com essas tempestades. Elas sempre existiram, mas o aquecimento dos oceanos está tornando-as mais destruidoras, pois furacões e tufões são mecanismo naturais de controlar a temperatura dos mares. Quanto mais quentes as águas oceânicas mais fortes os ventos.  

         A umidade relativa do ar também se ressente com as mudanças climáticas. Ano a ano, ela se torna mais intensa nas áreas onde já eram comuns. Os incêndios aumentam seu poder de destruição, como aconteceu recentemente na Grécia, em Portugal e no centro-oeste brasileiro. Crianças e idosos sofrem com umidades do ar muito baixas. Algumas acabam mesmo morrendo ou sofrendo de problemas na garganta, pulmões e olhos.

         A palavra final fica para as doenças transmissíveis. A grande circulação de pessoas pelo mundo favorece a disseminação de tais doenças, sobretudo no meio urbano, onde os equilíbrios ambientais foram destruídos. Cientistas brasileiros e de outros países concluíram que a febre amarela voltou a vitimar pessoas no Brasil graças à grande circulação promovida pela globalização. Para os cientistas, humanos foram infectados por mosquitos na Amazônia e levaram a doença para outras partes do país. Humano circula mais do que macaco.

         Agora, o medo dos especialistas é que a febre seja transmitida de pessoa para pessoa no meio urbano pelo aedes aegypti, já responsável pela transmissão dos vírus da dengue, da chicungunha e da zica. Para o mosquito seria apenas mais um vírus a ser transmitido. Para a população humana seria a transmissão de uma doença mortal. Com as mudanças climáticas, a proliferação de vetores de doenças tende a aumentar. Nas cidades dos países pobres, a coleta de lixo é sofrível, e no lixo existem muitos recipientes que acumulam água de chuva, criando ambiente muito favorável à procriação de insetos.

Mas não apenas deles. Também de vírus, bactérias, protozoários, fungos, vermes, piolhos, carrapatos, escorpiões e outros organismos. Por outro lado, as cidades empobrecem os ciclos ecológicos, eliminando ou afastando os inimigos naturais dos vetores. Nos lagos, não há mais peixes. As aves ou foram expulsas das cidades ou engaioladas ou mortas.

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