Revista Saúde Perss
CAPA
Rad-Med
Revista Saúde Perss
ENTREVISTA
Dr. Carlos Mário Mello de Souza
Radiologia
CRM 52 32139-2
Revista Saúde Perss
Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ
as-netto@uol.com.br
HOMENS, MACACOS E MOSQUITOS
Li uma reportagem sobre a tentativa de reprodução do muriqui em Ibitipoca. A mata é habitada por dois machos. Além da pressão que nós humanos exercemos sobre os fragmentos da Mata Atlântica, muito pequenos para garantir a sobrevivência dos animais, continuamos nossa marcha devastadora para abrir terras destinadas à agropecuária e às cidades. Os primatologistas conseguiram uma fêmea de muriqui para acasalar-se com os dois machos, também condenados a morrer sem descendentes e ainda de morrer mais jovens com febre amarela.

        Os muriquis não são monogâmicos. Era de se esperar que a macaca acabaria fecundada por um dos dois machos. Mas ela não quis saber deles. A macaca gostava mais de gente e de cavalo que de machos da sua espécie. Ela desapareceu. Não se sabe se está perdida ou se morreu.

         A reportagem foi publicada na “Folha de São Paulo” de 11/02/2018. Ela mostra o dilema do jornalista de ciência. Por um lado, ele tem de escrever de forma fácil para o leitor leigo. A macaca é comparada a Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado. Os cientistas queriam que ela vivesse com dois maridos e acabasse grávida. Mas, para ela, não é não, lema das feministas que estão combatendo o assédio sexual. Talvez toda essa ginástica não funcione, porque a maioria dos humanos não quer saber do mundo para além da humanidade. Poucos leem matérias sobre ciência, a menos que ela trate de nós. Os cientistas também não darão muita importância a esse tipo de matéria. Ela não prima pelo rigor científico.

         O muriqui é a maior espécie de primata de todas as Américas. Ela pertence a nossa família. Quem não aceita a relação familiar, mesmo que distante, repudiará a reportagem por insinuá-la que viemos do macaco. Quando eu ainda estava em sala de aula, podia falar em luta de classe e justiça social, mas, se penetrasse no evolucionismo darwinista, logo vinha a pergunta: “Professor, o senhor quer dizer que viemos do macaco?” Geralmente, eram alunos evangélicos, mas também católicos. Eles aceitavam o marxismo. Alguns deles até se diziam marxistas. Era compreensível. A matriz do marxismo é o cristianismo, embora os marxistas integrais, no seu ateísmo, não admitam a aproximação entre uma visão de mundo que eles consideram escapista – o cristianismo e qualquer outra religião – e uma visão que condena o ópio do povo.

         De tanto receber a pergunta sobre nossa ancestralidade com o macaco, certa vez irritei-me com uma aluna loirinha. Respondi que não apenas descendíamos do macaco como, na verdade, éramos macacos que não deram certo e que ela era uma mica-leoa-dourada. A moça se ofendeu e vários alunos lhe prestaram solidariedade. Passada minha fúria, pedi, de público, desculpas à moça. No fim do semestre, nossas relações eram cordiais. Ela achava carinhoso eu chamá-la de mica-leoa-dourada.

         Mas de volta aos macacos americanos, eles enfrentam um momento muito difícil. Nós estamos roubando a casa deles. Encurralados, eles estão encontrando dificuldades de alimentação e reprodução. Quase ninguém se importa com o drama de cada espécie. Os macacos são fundamentais para a saúde ambiental. Eles semeiam e ajudam a manter a floresta. E o grande perigo que enfrentam agora é a febre amarela. Percentualmente, têm morrido mais macacos que pessoas. E das várias espécies, principalmente o barbado. Para piorar suas já críticas condições de existência, as pessoas estão ajudando os mosquitos na morte dos macacos.

         Tem sido inútil explicar que os macacos são tão vítimas do vírus da febre amarela quanto às pessoas. Mais uma prova da nossa proximidade filogenética. O vírus já está presente no Haemagogus e no Sabethes, mosquitos silvestres. Eles picam humanos e macacos, transmitindo a doença. O macaco pode ser contaminado, picado e passar a doença para um humano, que pode também ser contaminado, picado e passar a doença para os macacos.

         Na África, as várias espécies de macacos parecem ter desenvolvido resistência à febre amarela por conviverem há muito tempo com ela. Os macacos americanos, que procedem da África por um caminho, para mim inimaginável, ainda não desenvolveram anticorpos ao vírus. Não podem ser vacinados porque a vacina não funciona neles, podendo até matá-los. É muito difícil capturar macacos nas matas para alojá-los em local protegido dos mosquitos, como jaulas cobertas de mosquiteiros.

Os primatologistas já pensam num plano nacional para a proteção dos macacos em relação à febre amarela. Eles pretendem, inicialmente, convencer a população quanto a importância dos primatas para a floresta e para as pessoas. O macaco dá o sinal de que a febre está por perto. Ou será que quem está muito perto das matas é o homem, que invade com facilidade a casa dos macacos?

         Em casos extremos, até transplante de fígado se usou em pessoas contra a febre amarela. Solução muito cara que pode simplesmente ser substituída por vacina, também muito mais barata que uma cirurgia cara e de alto risco. Mas, para o macaco, nada. Nosso imediatismo e individualismo não permitem que pensemos na importância dos macacos em nossas vidas. Em mais uma situação, vejo a situação do mundo não-humano com pessimismo e melancolia. Talvez, só percebamos a importância da natureza não-humana em nossa vida humana quando ela tiver sido reduzida a zero ou a porções mínimas.

Compartilhe

Fale Conosco

Para conhecer mais sobre a nossa revista, enviar dúvidas, sugestões ou comentários você só precisa preencher os campos do formulário abaixo.