Revista Saúde Perss
CAPA | ENTREVISTA
Dra. Jodinéa Melo Maurício Cesário
Pediatra e Médica do Trabalho
CRM 52 7572-76
Revista Saúde Perss
Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ
as-netto@uol.com.br
MATA, MOSQUITO, MACACO E MORTE
        Você mora em Belo Horizonte, mas podia morar também em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em qualquer outra cidade grande ou pequena da região Sudeste. Confortavelmente sentado em sua poltrona, você assiste ao telejornal. São muitas as informações e elas não fazem sentido deslocadas dos respectivos contextos. Mas você nem nota que elas apenas falam do aqui e agora, pois você, como a maioria das pessoas do nosso tempo, acha que o tempo da sua vida é todo o tempo do mundo. Não lhe importa os que vieram antes e os que virão depois.

        Uma notícia o leva a exclamar. Nada que o aborreça, contudo. Noticia-se que a Amazônia perdeu, nos últimos anos, uma área correspondente a de Belo Horizonte, cidade em que você mora. “Caramba, é muito. Belô é grande!”. Mas você não tem a mínima noção de que BH ergue-se sobre área da Mata Atlântica, que foi removida para dar lugar à cidade que, aliás, cresce de forma desordenada. A pobreza, a marginalidade e a violência cresceram. A destruição da natureza também. Os rios estão poluídos. Mas você não se importa com tudo isso, embora reclame da falta de segurança. Você acha que Belô foi sempre assim.

         Outra notícia chama a sua atenção: os casos de febre amarela selvagem estão crescendo no Brasil, sobretudo no Sudeste. Muitos médicos falando sobre ela. Seus depoimentos são curtos e passam. Uma moça foi infectada e fez transplante de fígado em busca da cura. “Essa é boa, será que essa solução será melhor que a vacina?”, você se pergunta. Mas deixemos todo esse monte de informações de lado. No final da semana, levarei a família para nos divertirmos no Parque da Serra do Rola Moça. Faremos um piquenique com amigos e muita cerveja. Vocês vão despreocupados. Lá, se divertem muito e voltam. Você foi picado pelo mosquito Haemagogus e não notou. Você está infectado pelo vírus da febre amarela. Voltando para casa, você ainda não sente nada. Novamente, o telejornal volta a falar da proliferação do Aedes aegypti e do risco que isso representa para a saúde pública. O Haemagogus levou-nos a esquecer da dengue, da chikungunya e da zica. É que choveu muito em Belô no verão de 2017-2018.

         A moça do tempo fala muita coisa que a gente não entende. Passa a mão sobre o mapa e não se detém em parte nenhuma. Ela é bonitinha, usa umas roupas sensuais e distrai nossa atenção. Uma zona de convergência do Atlântico sul está trazendo muita água da Amazônia (mas sua área está sofrendo redução). As zonas de alta e baixa pressão ajudam as chuvas. Piscinas, caixas d’água, latas, lixo em terrenos baldios e mesmo nas ruas, plásticos, tampinhas, tudo acumula água. A fêmea do Aedes deposita seus ovos. Com o calor, que diminuiu apenas um pouco, os ovos eclodem. Rapidamente, novas fêmeas com fome de sangue humano picam as pessoas.

         Antes que você apresentasse os sintomas da febre amarela, várias fêmeas de Aedes picaram todo seu corpo e de outras pessoas também. Você trouxe a febre amarela da Serra da Rola moça e nem percebeu. Você foi picado várias vezes na cidade pelos mosquitos da dengue, que, por sua vez, picaram outras pessoas. Agora, o ciclo é urbano. Um mosquito substitui outro na transmissão.

         Seu caso se agravou e você morreu. Não houve tempo para vacina nem para transplante de fígado, porque você era da classe média e não tinha dinheiro para bancar a cirurgia. Seu fígado já estava bem estragado por causa do álcool. Várias pessoas foram contaminadas por você, e também, morreram. Não foi culpa sua.

         Você deixou sua mulher viúva e dois filhos órfãos. Malditos mosquitos, malditos macacos, maldita floresta. Deveria haver uma campanha de extermínio a todos os animais que transmitem doenças. Todas as florestas deveriam ser erradicadas, desabafa a viúva. Um historiador explica na TV, no seu pouco tempo de glória, que o problema começou com Colombo e Cabral. Mas a viúva o amaldiçoa.

         Viúvas e viúvos esquecerão seus esposos mortos. Os filhos também. Os médicos e os governos também esquecerão tudo até o próximo surto. As funerárias lamentarão. Afinal, vivemos na sociedade do dinheiro. Voltaremos a opinar no próximo surto e diremos que estamos combatendo o mosquito. 

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