Revista Saúde Perss
CAPA
Rad-Med
Revista Saúde Perss
ENTREVISTA
Dr. Carlos Mário Mello de Souza
Radiologia
CRM 52 32139-2
Revista Saúde Perss
Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ
as-netto@uol.com.br
CORPO UNIVERSAL
        O corpo humano tem uma estrutura universal. Ele caracteriza a espécie Homo sapiens, pertencente à família dos hominídeos. Todos nascem com cabeça, tronco e membros, mas com tipos físicos ligeiramente diferentes em virtude das variedades fenotípicas. Negro, amarelo e branco são os tipos universais que podem dar origem a mestiços. Existem também as variações familiares. Algumas famílias produzem tipos atarracados ou longilíneos, com cor distinta de cabelo e de olhos. Até mesmo os pigmeus, humanos de pequena estatura integram a espécie. Contudo, todos os tipos são variações em torno de um mesmo padrão universal. Não há tipos superiores e inferiores.

        Mas é preciso considerar as anomalias genéticas. Há deformações congênitas, que provocam alterações no modelo básico. São muitas. Elas ocorrem em animais e no ser humano. Poucos conhecem a aquiropodia, uma anomalia que já foi comum no interior do Brasil, mas que está em extinção. As pessoas nascem sem mãos e pés. Há famílias inteiras padecendo de aquiropodia. Algumas deformações foram focalizadas em filmes, como as que aparecem em “Monstros”, de Tod Browning, de 1932, ou em “O homem elefante”, de David Lynch, tratando de um caso real.

         A partir do protótipo humano, deve-se considerar que as culturas moldam o corpo, principalmente o corpo feminino. Os primeiros navegantes europeus que chegaram à América ficaram impressionados com o que os nativos faziam com o corpo. Pintavam seus corpos com tinturas fornecidas pela natureza. Os europeus pensavam que se tratava de adorno, quando, na verdade, os desenhos tinham significado para os ameríndios. Eles também rasgavam fendas nas orelhas e nos lábios, onde introduziam batoques. Em muitas nações indígenas, a nudez não era vista como imoral. Era comum encontrar homens nessas nações que enrolavam o pênis com fibras vegetais.

Na China, os pés femininos eram deformados para prazer dos homens. Eram os chamados pés-de-lótus, impedidos de se desenvolverem normalmente. Eles eram enfaixados quando nascia a menina, de modo a terem os dedos curvados para baixo e ficarem atrofiados. Os homens gostavam de mulheres com pés-de-lótus. Eram atraentes. Na Tailândia, era muito comum alongar o pescoço das mulheres com argolas para atrair os homens. Na África, a própria natureza acumulava gordura nos seios e nos glúteos. É um fenômeno denominado esteatopigia. Os europeus consideravam essas mulheres como objeto de circo de monstros.

A ocidentalização do mundo a partir do século XV foi acabando progressivamente com essas práticas culturais no corpo. A globalização tem um caráter uniformizador. Assim, foi se impondo um modelo de corpo universal à humanidade. Era preciso dar fim ao que os europeus consideravam crueldade e aberração. Mas o padrão cultural imposto foi o ocidental. Os missionários impuseram roupas aos nativos da África e da América. Na China, a prática de deformar os pés femininos está se extinguindo. A esse respeito, ver o artigo recentemente publicado em “Hoje Macau”, jornal editado em português numa possessão portuguesa devolvida à China (https://hojemacau.com.mo/2017/06/14/pes-de-lotus/).

Se, por um lado, o ocidente condenou o que considerava práticas bárbaras, criou outras. Hoje, mulheres e homens são escravos do corpo. Não se trata de saúde, conquistada com alimentação sadia e prática de esportes ou exercícios, mas de uma estética por vezes cruel. Não se trata de cuidar dos cabelos, da pele e das unhas, e sim, de modelar o corpo com o uso de cirurgias. Homens e mulheres, em grande parte, não estão contentes com o corpo que têm. Falo de homens e mulheres ricas ou com renda média. Tomemos o caso de Vanessa Urach, por exemplo. Nada de pessoal contra ela. Seu caso apenas ilustra a insatisfação com o corpo.

Antes de perseguir o inalcançável, ela modelou seu corpo, aumentando e diminuindo seios e glúteos por inserção de botox e silicone. Não contente com o corpo em seus mínimos detalhes, ela atacou o último rincão dele, tentando afilar dedos dos pés, como revela a matéria contida em: http://www.purepeople.com.br/noticia/antes-de-internacao-andressa-urach-iria-tirar-dedo-do-pe-para-deixa-lo-fino_a38091/1. Sua obsessão pela perfeição quase a levou à morte. Várias outras morreram em busca de um corpo perfeito. 

         Nem tanto nem tão pouco. Por pesquisas confiáveis, sabe-se que as pessoas sofrem cada vez mais de obesidade mórbida, por alimentação inadequada e falta de exercícios. Nesse caso, não se trata de condenar tratamentos. Apenas nos casos de compulsão por corpos perfeitos, deve-se chamar a atenção para os riscos que essa busca cruel pode causar. Inclusive para os médicos que a praticam.

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