Revista Saúde Perss
CAPA
Clínica
Emagrecentro
Revista Saúde Perss
ENTREVISTA
Dra. Fernanda Guimarães
de Almeida Fróes
Nutrologia & Medicina Estética
CRM 52 84898-0
Revista Saúde Perss
Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ
as-netto@uol.com.br
A GLOBALIZAÇÃO E AS DOENÇAS - FINAL
         Paradoxalmente, a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, ambas no século 18, avançando para o século 19 e 20, contribuíram de forma significativa para o avanço da medicina. De fato, é paradoxal esse avanço, porque, nas suas origens, a Revolução Industrial, acentuou o processo de urbanização de forma acelerada. As cidades, sobretudo Londres, tornaram-se mais insalubres. As moradias dos operários eram pobres. Não havia ainda água tratada e encanada. O esgoto corria a céu aberto pelas ruas. O ar era muito poluído, sobretudo pelos gases derivados da queima do carvão.

         Por sua vez, a revolução francesa foi muito virulenta, notadamente na fase napoleônica, em que as intensas guerras matavam muitas pessoas dentro e fora do país. As doenças transmissíveis foram responsáveis por muitas vítimas fatais, tanto na Europa quanto nos outros continentes. Na África, na América e na Ásia, os Estados europeus fundaram colônias. A circulação de caravelas europeias promoveu a circulação de muitas pessoas pelo mundo. A circulação de doenças, também, se aumentou tanto em extensão quanto em intensidade.
 
         O historiador Thomas Southcliffe Ashton e vários outros mostraram que o saneamento ambiental contribuiu mais para reduzir a mortalidade que os médicos, os medicamentos e os hospitais. Por sua vez, o pensador Michel Foucault demonstrou que o conhecimento científico avançou com as guerras, porque elas, criaram ambiente favorável ao desenvolvimento de médicos de combate, como o cirurgião Dominique Jean Larrey.  Ambulâncias móveis e hospitais de campanha proliferaram com as guerras da Europa e com a Guerra de Secessão. As lesões ampliaram o conhecimento sobre amputações e reparações.
 
         Tais avanços da medicina em tempos de guerra contribuíram para os tempos de paz. A vida das pessoas melhorou? Sim, e não, ao mesmo tempo. Sim, porque as pesquisas conduziram à produção de medicamentos poderosos. Dentre eles, merecem destaque os antibióticos. A formação de médicos também se tornou mais sofisticada. O corpo humano foi dividido em várias especialidades. A rede hospitalar foi de vital importância. Não porque a população aumentou e se urbanizou globalmente.
 
As comunicações se aceleraram e aumentaram as possibilidades de contágio. Estima-se em cem mil voos de avião diariamente. As cidades cresceram com o êxodo rural. As condições de vida pioraram na periferia. Os rios transformaram-se em verdadeiras valas de esgoto. As florestas foram em grande parte removidas pelas cidades. Outras tantas confinam com as matas. Certas doenças, como a febre amarela, por exemplo, disseminam-se com mais facilidade em margens de fragmentos, de florestas. O caso atual do Brasil é ilustrativo. Epidemias de ebola, dengue, zica, chicungunia, aids, por exemplo, grassam com facilidade, porque os contatos entre pessoas dos vários continentes se intensificaram, e porque, encontram terreno fértil na pobreza. Repetimos: as chamadas doenças tropicais nada mais são que doenças da pobreza.
 
E novas epidemias já são previstas por cientistas. Os desequilíbrios ambientais devem ser levados em conta para explicar os surtos. O adensamento populacional facilita os contágios. A pobreza aumenta as doenças carenciais, e estas, favorecem as doenças contagiosas.
 
A urbanização intensa aumentou o índice das chamadas doenças da civilização. Doenças degenerativas, como a: hipertensão, a elevação do mau colesterol e da glicose. A má alimentação associada ao sedentarismo aumenta a taxa de obesidade. Mas a desigual distribuição de renda entre países e no interior de cada um, acarreta e agrava mais ainda os problemas de saúde.
 
Por trás de tudo, está a economia de mercado. Ingenuidade pensar que os agentes de saúde estão a serviço do bem-estar da humanidade. Vários deles podem até pensar assim, mas a indústria farmacêutica, os planos de saúde, as clínicas, os hospitais caros, as cirurgias desnecessárias estão atreladas ao capital. Nascer, viver e morrer passou a ser um negócio lucrativo. As necessidades básicas do ser humano caíram progressivamente nas malhas do mercado nos 600 anos da globalização ocidental. Alimentação, saúde, educação, moradia, trabalho, lazer e cultura, as principais necessidades humanas, foram progressivamente capturadas pelo mercado.
 
         Agora, a medicina abre uma nova fronteira: o prolongamento da vida humana. Há quem estime que a vida humana pode alcançar a média de 115 anos. Outros ampliam esta estimativa para 125 anos. Há quem mesmo alimente a utopia de se chegar aos mil anos de vida. Investe-se cada vez mais no tratamento às doenças do envelhecimento, como o mal de Alzheimer, o Parkinson, o câncer etc. Não importa muito a qualidade de vida do idoso. Parece que o prolongamento da expectativa de vida é mais importante, porque ela se torna mais rendosa. Pode-se concluir que o humanismo ocidental não é humanista.

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