Revista Saúde Perss
CAPA
Clínica
Emagrecentro
Revista Saúde Perss
ENTREVISTA
Dra. Fernanda Guimarães
de Almeida Fróes
Nutrologia & Medicina Estética
CRM 52 84898-0
Revista Saúde Perss
Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ
as-netto@uol.com.br
A GLOBALIZAÇÃO E AS DOENÇAS - I
        Que o leitor procure retornar seis séculos no tempo. No início do século 15, existiam várias culturas espalhadas pelo mundo. Elas se comunicavam, mas não de forma intensa como hoje. Algumas viviam isoladas. Havia culturas que se baseavam na coleta, pesca e caça para viver. Outras já conheciam a agricultura e o pastoreio. Poucas haviam atingido o nível de complexidade que lhes permitia desenvolver cidades e comércio. De leste para oeste, podemos identificar as civilizações da China e Japão, a hinduísta, a muçulmana, a cristã russa, a cristã europeia, a mexicana e a andina.

        Todas as sociedades - caçadoras, criadoras e civilizadas - enfrentavam doenças, principalmente derivadas de carências alimentares e organismos patogênicos. As doenças transmissíveis ou eram endêmicas e/ou epidêmicas. Elas matavam pessoas em certas épocas do ano ou se abatiam sobre as sociedades na forma de epidemias e de pestes. Ficaram famosas as pestes de 542, no governo do imperador Justiniano, e a peste do século 14, na Europa ocidental.

         Essas doenças transmissíveis, contudo, costumavam ser restritas a uma sociedade. Era incomum alcançarem longas distâncias pelo isolamento em que viviam as sociedades. A peste negra, que arrasou a Europa ocidental no século 14, ao que tudo indica, veio do oriente e dizimou cerca de 75 milhões de pessoas. A fome crônica, as condições de higiene e o massacre de gatos, animais considerados diabólicos pelos cristãos da época, permitiram a proliferação de ratos e de pulgas, vetores da peste bubônica.

Quando a Europa iniciou sua expansão marítima, no século 15, as doenças contidas localmente começaram a se expandir também e a ganhar novas áreas. Em suas caravelas, os europeus não levavam apenas marinheiros, canhões, plantas e animais desejáveis, mas também plantas, animais e doenças indesejáveis. Os europeus levaram para o grande continente americano: o sarampo, a rubéola, a disenteria, a icterícia catarral, a coqueluche, a caxumba, a amigdalite, a meningite meningocócica, a gripe, a difteria, a varíola, o tracoma, a catapora, a peste bubônica, a malária, o tifo, a cólera, a dengue, a escarlatina, a amebíase, as doenças venéreas e muitas outras. É bem verdade que várias delas foram levadas da África para a América com o tráfico europeu de escravos. Os nativos americanos não tinham resistência a essas doenças vindas de fora e morriam facilmente com uma simples gripe. A mais assustadora doença era a varíola.

Os nativos da América estavam sujeitos ao purupuru, à bouba, à hepatite, à encefalite, à poliomielite, a algumas variedades de tuberculose (não aquelas geralmente associadas a doenças pulmonares) e a parasitoses intestinais. Quanto à sífilis venérea, há dúvida sobre a sua origem. A maioria dos autores sustenta sua procedência americana. No entanto, o médico e filólogo brasileiro Afrânio do Amaral, em exaustivo estudo, analisa a possibilidade de a doença proceder da Europa e da Ásia. Não sem fundamento, há um ditado ianomâmi com o seguinte teor: “Os homens brancos provocam doenças; se os brancos nunca tivessem existido, a doença também nunca teria existido”.

As chamadas doenças tropicais são, na verdade, doenças da pobreza e da miséria. Em grande parte, são doenças desenvolvidas na Eurásia e exportadas para outros povos.

Todas as culturas do mundo desenvolveram a arte medicinal. Não podia ser diferente na Europa e no mundo europeizado. A diferença é que, também neste aspecto, a medicina europeia dominou as demais e se proclamou a única verdadeira. A civilização chinesa, por exemplo, desenvolveu uma arte medicinal refinada, que começa a ser reconhecida pelo ocidente, mas ainda sofre preconceitos. Mencionemos apenas a acupuntura, já receitada por médicos com formação ocidental.

O que a medicina europeia fez ao longo de seis séculos (e continua fazendo) é tentar solucionar problemas que a própria expansão europeia criou, tanto para a própria Europa quanto para o mundo. E a medicina continua perseguindo soluções para tais problemas. Hoje, as doenças antes restritas às várias partes do mundo conseguem ganhar âmbito planetário em virtude da globalização, nome que usamos para designar o processo de ocidentalização do mundo, processo este impulsionado por uma economia de mercado. A medicina, em todas as suas fases, está relacionada e esta economia.

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