Revista Saúde Perss
CAPA | ENTREVISTA
Dr. Rogerio Venancio
Cirurgião Plástico
CRM 5231757-4
Revista Saúde Perss
Arthur Soffiati
Professor de história e eco-historiador
Mestrado e doutorado na UFRJ
as-netto@uol.com.br
HISTÓRIA DAS DOENÇAS
Nossa primeira impressão é a de que as doenças sempre existiram, antes mesmo que os seres humanos tenham habitado a Terra. Impressão enganosa. As doenças dependem do meio. Se mais pessoas se concentram nesse meio, mais facilmente as doenças se desenvolverão. Entre os povos nativos da América, por exemplo, a incidência de doenças era menor, apesar da escassez de remédios, de médicos, de postos de saúde e de hospitais. O tempo de vida era menor, contudo, e os riscos corridos pelo ser humano eram grandes. A longevidade natural das pessoas não era aumentada com remédios. E havia a ameaça de acidentes, de guerras e de caçadas.

Nas regiões mais povoadas do planeta, no século XV, por exemplo, a destruição do meio já avançava vertiginosamente. As doenças transmissíveis dos europeus não funcionaram como arma de extermínio entre os muçulmanos do Oriente Médio por ocasião das Cruzadas entre os séculos XI e XIII. No Oriente Médio também havia aglomerações e destruição do ambiente natural. Havia, portanto, muitas doenças que os europeus trouxeram para a Europa.
 
A famosa Peste Negra, que causou a morte de quatro milhões de pessoas numa população de dez milhões veio do Oriente. Ela prosperou por encontrar uma população sem defesas naturais e debilitada pela grande fome do século XIV. Os europeus foram desenvolvendo anticorpos para muitos micróbios. Todavia, eles não eram extintos, e sim, controlados pelo organismo. Eles continuavam nos corpos das pessoas esperando oportunidades de se manifestarem em corpos ainda virgens de doenças.
 
Foi o que aconteceu com a expansão da Europa pelos oceanos. Mais perigosa que um canhão era uma caravela. Dentro dela, havia homens infectados que resistiam às doenças. Eles usavam armas brancas e armas de fogo desconhecidas pelos povos nativos da América. Além do mais, eles transportavam cachorros, cavalos, bois, cabras e outros animais também carregados de micróbios. Vinham também plantas e sementes nessas embarcações. Por fim, até mesmo animais indesejados pelos navegantes, como ratos e insetos.
 
Os nativos estavam acostumados a doenças e a traumas causados por caçadas e guerras. Seus remédios vinham diretamente da natureza, sem manipulação da indústria farmacêutica. Os xamãs eram os médicos. As crenças religiosas ajudavam consideravelmente nas curas feitas normalmente com ervas. Usando um sistema semelhante ao de vacinas, os nativos inoculavam em seus corpos, em doses homeopáticas, venenos mortais, como o de cobras, desenvolvendo resistência a eles.
 
A chegada dos europeus à América e à Oceania representou uma catástrofe para os povos indígenas. Eles não tinham anticorpos para as doenças transmissíveis dos europeus. Essas doenças foram mais letais aos nativos que as armas. Na Nova Zelândia, os nativos entravam em pânico ao verem a mosca europeia, porque ela indicava a presença de europeus.
 
Na América, uma das doenças europeias mais temidas era a varíola. Os europeus já eram resistentes a ela, mas os nativos americanos não. Quando, num grupo indígena, ela se manifestava, as pessoas aparentemente sãs fugiam com medo de contraí-la. Tais pessoas não sabiam que já estavam contaminadas e que a doença iria se manifestar mais tarde, quando ela já estava em outro grupo humano, julgando-se salva.
 
As chamadas doenças tropicais são, na verdade, doenças da pobreza e da miséria. A maioria esmagadora delas desenvolveu-se no “Velho Mundo” depois do Neolítico e da revolução urbana, em função da sedentarização de algumas sociedades. No Paleolítico, os grupos humanos eram atacados por ecto e endoparasitos, como piolho, sarna e vermes, além de algumas doenças contagiosas. Contudo, seu modo de vida não acarretava a produção de esgoto e lixo, o que limitava a proliferação de organismos vetores de enfermidades. A sedentarização acarretada pelo Neolítico e pelas primeiras cidades trouxe o problema do lixo, do esgoto e da poluição da água para consumo. A concentração demográfica favoreceu a disseminação de morbidades.
 
Vários grupos nativos da América já haviam se sedentarizado. Mas, além dos remédios domésticos, havia o controle de transmissores de doenças pelas florestas principalmente. Além do mais, as concentrações populacionais não apresentavam grande densidade. Com os europeus, desembarcaram na América: o sarampo, a rubéola, a disenteria, a icterícia catarral, a coqueluche, a caxumba, a amigdalite, a meningite meningocócica, a gripe, a difteria, a varíola, o tracoma, a catapora, a peste bubônica, a malária, o tifo, a cólera, a febre amarela, a dengue, a escarlatina, a amebíase, as doenças venéreas e muitas outras.

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